A vida é assim mesmo... um dia estamos cercados de amigos legais ou namorando alguém especial, e no outro, lá estamos nós sozinhos novamente, as vezes mais feliz, e em outras vezes, mais tristes.
Bem, mais uma vez pessoas iam embora da minha vida para nunca mais voltar, como o Max e sua família, e novamente tudo o que eu tinha eram as minhas raízes, minhas velhas amizades que não passavam, estavam sempre alí, firmes...
Carrego comigo o dom de fazer amigos da mesma maneira que preservo velhas amizades, na verdade, gosto mesmo é de ter muitos amigos de várias classes sociais, raças e pensamentos diferentes. Gosto de observar e aprender. Assim continuei minha busca por novos amigos...
Comecei a ir para a Gerus sozinha, pois as meninas estavam namorando firme e já não iam com frequência aos bailes.
Eu era destemida e determinada e tinha facilidade de me comunicar, e meu objetivo era fazer amigos para me divertir e dançar. Foi num desses bailes que eu coheci Angélica e Katia. Elas estavam dançando em passinhos e eu me juntei a elas pra dançar. Me lembro que gostei da Angelica de cara, já a Katia era apenas a questão dela ser amiga da Angelica. Dançamos até vir a hora da musica lenta. Foi nessa hora que a Angelica disse "vamos tmar um refri?". E assim fizemos. Sentamos na mesa do bar que ficava dentro da danceteria e começamos a conversar.
- Adorei seu cabelo cheio de trancinhas - disse Angelica.
- Eu também adoro tranças. Minha mãe faz essas tranças em todas as meninas da minha rua e eu odeio meu cabelo, é muito liso, fica caindo na cara, me incomoda - eu disse.
- Eu não gosto de ficar perdendo tempo com cabelo, por isso corto curto - disse Katia.
O cabelo dela realmente era bem curtinho, já o da Angelica era bem liso, muito preto e batia acima do bumbum...
- Eu acho que sou diferente de vocês duas - disse Angelica - Não consigo nem pensar em cortar meu cabelo, adoro cabelos longos e lisos... mas vamos mudar de assunto, né? Sandrinha, quais as bandas que você mais curte?
- Sou eclética, gosto de tudo um pouco - disse eu - Mas sou fã mesmo de The Cure, Legião Urbana, Supla, Uns e Outros, Nenhum de Nós, Plebe Rude, e adoro o Dr. Silvana (risos).
- Caramba! - Exclamou Katia - Gosta de todas essas bandas de rock e também do Dr. Silvana?
- Eclética mesmo - disse Angelica - eu também adoro Dr. Silvana e cia.
- Sou eclética mesmo! - eu disse - Adoro Silvinho Blaublau, Alberto Brizola, Léo Jaime, Lobão, Djavan... na maioria das vezes curto música nacional, mas também amo os Menudos...
- Começou a música pra dançar, vamos voltar pro salão. - disse angelica.
Estávamos dançando na pista de música internacional, onde o pessoal dançava break, quando dois meninos se aproximam... Marquinhos e Telson. Marquinhos era alto, devia ter 1,80m de altura, magro e muito desengonçado, já Telson era lindo, 1,70m mais ou menos, olhos esverdeados, um corpo definido... mas os dois eram igualmente adoráveis. Se aproximaram de nós para acompanhar o passo e, logo já eramos um grupo de amigos que se encontrava todo sábado no mesmo local.
Em um fim de semana desses foi que apresentei os meninos pro meu irmão. Eles tinham em comum o break e logo ficaram super amigos, começaram até a frequentar minha casa.
Minha mãe adorava Telson, ele fazia tudo para agradá-la, até que um dia ele veio me pedir em namoro e eu não quis. Minha mãe e meu irmão ficaram super chateados, eles achavam que ele era um cara legal. E era. Mas eu queria apenas sua amizade. Eu adoro a idéia de um grupo de amigos todo fim de semana dançando, batendo papo. Não queria ter alguém me prendendo, não queria enganar ninguém, eu nem pensava em namorar mas ninguém, o Tony ainda estava bem vivo em meu coração e ia demorar um pouco pra esquecer o quanto sofri, o quanto o quis. E foi assim que mais uma amizade se desfez. Angelica veio conversar comigo, pois percebeu em um dia que nem me aproximei dos meninos, e nisso eu expliquei minha situação para ela e decidimos apenas dançar.
Dançamos até umas 02:00 e meu irmão não apareceu no baile nesse dia. Fiquei sem companhia pra voltar pra casa.
- Angélica, to ferrada! - eu disse - Meu irmão não apareceu e vou ter que ir andando pra casa sozinha.
- Você pode dormir la em casa - ela disse - a gente da um jeito.
- Seus pais não vão achar ruim?
- Não, fica tranquila.
Saimos da Girus umas 4 da manhã e fomos para a casa da Angélica, que ficava na estrada de madureira (Nova Iguaçu) ao lado da faculdade e a casa da Katia ficava em frente.
No dia seguinte, um domingo, fomos na casa da Katia... nunca vou me esquecer desse dia... eu tomei banho na casa dela e derrepente ela apareceu na sala dizendo pra todo mundo que eu usava argolas feitas co ferro de Durmabem. Era verdade, eu não tinha dinheiro para comprar bijuterias, ai fazia argolas desse ferrinho, mas fiquei muito triste, me senti muito humilhada. Não consigo esquecer a cena, todos sentados na imensa sala assistindo Silvio Santos...
Sai da casa dela como fugida, as pressas, não estava contendo a dor de ser humilhada. Foi então que Valmir, irmão dela veio falar comigo. Ele saiu da casa gritando "Sandrinha, Sandrinha!" Eu fingia que não ouvia e fui para o ponto de ônibus esperar meu ônibus passar. Valmir senta do meu lado e diz:
- Sandrinha, não liga pro que Kátia diz, ela é uma menina mimada e futil.
Fiquei um tempo calada, perdida, tentando achar um motivo para que as pessoas façam coisas desse tipo, magoar e ferir outras pessoas assim, sem razão. Mas derrepente voltei pra realidade com o Valmir me falando de seus problemas, tristezas... pensei "Caramba, esse menino que tem tudo o que quer também tem suas lamentações. Foi então que falei:
- A katia realmente me entristeceu, pensei qe era menina humilde.
- Sandrinha, não importa o que a Katia é ou deixa de ser, o que importa é o que você é! E você é uma garota muito legal, não importa se não tem dinheiro para andar na moda ou usar jóias.
- É, eus ei... pra mim isso também não importa, mas fico triste porque as pessoas se importam, elas não olham pra dentro de cada um , mas julgam pelo exterior...
- Eu olho pro interior! E queria muito ter sua companhia para conversar, sair, dançar... você quer namorar comigo?
- Como assim? Assim sem mais nem menos começar a namorar com você?
- É, assim! Mas vamos fazer o seguinte: não precisa me beijar, abraçar, nada disso agora. A gente sai, se diverte, dança, conversa, você conhece meus pais e a gente só faz aquilo que você quiser fazer. Topa?
- É, acho que assim pode ser!
- Legal, então vou te levar em casa.
- Tudo bem.
E assim ficamos dois meses, raramente davamos um beijo, mas nos divertiamos muito juntos, eu o amava de uma maneira especial, ele me fazia acreditar mais em mim, e fazia companhia em momentos tristes ou alegres, e tinha um abraço doce e fraterno, parecia que queria me proteger do mundo em seus braços. Mas boatos circulavam que ele era gay, as pessoas riam de mim quando eu passava com ele, e eu já desconfiava, tinha certeza que ele era gay, mas como eu não pensava em iniciar uma vida sexual, não me importava, até preferia um namorado que não quisesse transar, com ele eu me sentia querida de verdade, pois eu sentia em cada gesto, em cada abraço o quanto ele realmente se sentia bem ao meu lado, isso era real. Lembro-me como se fosse hoje. Era uma noite fria, estávamos no New Clube, ele sentou na minha frente, estava tocando The Cure... Ele olhou nos meus olhos e perguntou:
- Sandrinha, se você namorasse uma pessoa e descobrisse que ele era gay, mas nunca te traiu com nenhum homem, mas antes de você saia com homens, você entenderia?
- Claro que entenderia, as pessoas não podem ser julgadas pelo que fizeram, mas pelo que fazem no momento que estão com você.
- Você é realmente uma pessoa surpreendente, adoro você!
- Também adoro você!
Nesse momento começou a tocar Boys Don't Cry - The cure. Ele me puxou para o meio do salão e dançamos até pingar de suor. Mas aquela noite parecia ser a nossa despedida, talvez ele queria dizer adeus, mas não sabia como fazer.
Depois desse dia, não o vi mais. Ficou sem me procurar dias, semanas... Eu também não o procurei, respeitei sua ausência, acho que no fundo entendi tudo, sabia que aquele dia tinha sido uma despedida.
Fui então ao baile da Girus com as meninas do Bom Pastor. E como sempre acontecia após o baile, ficamos sentadas na rodoviária de Nova Iguaçu esperando a hora do ônibus. Eu estava ali, sentada no meio-fio, quando vi ao longe três lindos travestis e geral mexendo com eles. E eu não acreditei no que vi: o Valmir vestido de mulher. Ele tentou se esconder de mim, mas eu corri gritando:
- Espera, espera!
Ele ficou de cabeça baixa, com vergonha de me olhar nos olhos. Então eu disse:
- Val... não precisa ficar triste e nem com vergonha.
- Desculpa Sandrinha. Eu não queria te magoar.
- Val, isso não muda em nada o meu respeito, minha admiração, meu carinho por você! Você foi o melhor namorado que tive, aquele que me fez sorrir, me fez companhia nas horas difíceis, aquele que realmente gostava de estar comigo e o melhor, não tinha nenhuma intenção por trás de tudo...
- Eu gosto demais de você, Sandrinha. Mas não queria continuar te enganando. Mais cedo ou mais tarde você irá despertar para a vida sexual e eu não seria bom pra você.
Talvez você até tenha razão, mas você foi e será eternamente alguém especial para mim. Amo você de uma maneira pura e verdadeira, que talvez nunca mais amarei, diferente de tudo que vivi.
- Obrigado Sandrinha. Eu sinto o mesmo por você.
Nesse momento cairam lágrimas de seus olhos borrando o preto de sua maquiagem. Eu o abracei, beijei no rosto e disse adeus... e então o vi indo embora de minha vida. Mais uma vez alguém especial estava saindo da minha vida e eu ficando sozinha novamente.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Novas amizades parte 2
Novas amizades parte 2
Com o fim da minha historia com o Tony, eu voltei a sair com as meninas para o baile da Giru’s Clube de Nova Iguaçu. Era uma noite de sábado, chuvosa, e fria, me lembro que eu fui ao baile sem vontade nenhuma, minha alto-estima estava no chão, eu não conseguia entender, todos os meninos que gostava, diziam me amar como pessoa, mas então porque nunca dava certo? Eu pensava.
Estava perdida em meus pensamentos, encostada em uma pilastra, quando começou a hora da musica lenta, quando um garoto loiro de cabelo bem lisinho vem em minha direção e me tira para dançar, a música era A Cruz e Espada do RPM, eu sem vontade alguma aceitei.
Dançamos, e eu ia saindo as pressas quando ele disse:
- Não queria só dançar com você, quero te conhecer!
-É! Prazer, Sandrinha! Respondi.
-Prazer, João Carlos! Você vem sempre aqui nesse baile?
- Venho! Respondi
-Ta afim de um refri? Eu pago! Ele disse
-Tudo bem! Respondi
Sentamos para tomar refrigerante e conversar... A vida é mesmo muito engraçada. Acho que naquele momento ele tava procurando uma menina pra ficar, e acabou ganhando uma grande amiga e companheira. Nossa amizade se estendeu, não sentia nenhuma atração por ele, e acho que com o passar do tempo ele também começou a me ver como amiga, começamos a sair juntos pra jogar totó no shopping, ir ao parque então, era todo domingo. Até que um dia em que ele me chamou pra ir à casa da tia dele, ele me avisou que ela era muito cheia de frescura, gostava de tomar chá em xícaras de porcelana, ler e que seu papo era chato, falava muito sobre filosofia oriental e etc. Falou também dos seus primos Marco Túlio, que disse ser muito legal, e Max seu primo metido a intelectual, que só pensava em estudar, ler, fazia até curso de alemão. Quando cheguei na casa deles fiquei deslumbrada, a casa ficava ao lado da praça do skate, tinha muitos jovens curtindo um som e andando de skate. A casa deles era enorme, a decoração era linda, e a tia dele, um doce, uma pessoa muito fina, educada e gentil, pra surpresa do João nos duas ficamos amigas, ela me chamou para tomar chá, eu adorei... Estávamos eu e ela batendo papo, quando de repente a porta da biblioteca se abre e sai de lá um rapaz alto, forte, muito branco e loiro, era o Max, nunca vou esquecer a maneira como ele me olhou, ele ficou um tempo parado me olhando, e depois veio tomar chá com a gente. Enquanto isso, João e Túlio estavam na praça do Skate me esperando.
- Oi! Prazer meu nome é Max, quem é você? Perguntou.
Dona Nice responde por mim
- Ela é a amiga do João! Sandrinha.
-È. Sou a amiga do João. Prazer!
Tomamos chá, e ele perguntou
- Você gosta de ler?
- Gostar eu gosto, mas não tenho muito acesso a livros não!
-Qual o livro que você mais gostou de ler? Ele perguntou
- Adoro Os Lusíadas - Luís De Camões, Gibran, e Dom Casmurro de Machado de Assis. Respondi
- Alem de ler, o que você gosta de fazer? Perguntou.
- Gosto de escrever sobre coisas do cotidiano, fazer poesia, dançar e jogar totó. Adoro jogar totó! Respondi.
- Legal, podemos marcar um dia pra irmos jogar totó? Perguntou.
- Claro! Respondi.
- Quer dar uma olhada na nossa biblioteca? Tem coisas bem legais. Perguntou.
- Quero sim! Respondi
Fomos à biblioteca, daquele momento em diante o Max deixava de ser o CDF retraído e calado, introvertido, e passava a ser um grande amigo. Descobri que tinha mais afinidades com ele do que com o João e o Túlio. Gostava deles, mas ao lado de Max eu aprendia coisas, conhecia coisas meu mundo se abria, ele sempre me mostrava algo que eu não conhecia e nossas conversas se estendiam...
A vida é mesmo engraçada, era sempre eu quem levava o fora, e acabei achando que ninguém nunca fosse me amar, mas tudo isso mudou quando conheci o Max. Max se apegou de tal maneira que tinha que me ver pelo menos duas vezes por semana, acho que era porque eu gostava de ouvir o que ele tinha pra falar, eu não sabia as coisas que ele sabia, mas queria aprender, queria ouvir, e ele se sentia importante, aceito e querido, já que pro pessoal da nossa idade, ele era o chato. Eu adorava estar com ele, mas tinha medo de falar que morava num barraco, pensei que ele deixaria de gostar de mim, pensei que um menino que estudava no Leopoldo, falava Inglês e alemão, nunca iria querer ser amigo de alguém como eu. Mas Max, além de querer minha amizade, se apaixonou por mim, e foi por esse motivo, após uma declaração dele, que resolvi nunca mais aparecer, pois não queria magoá-lo, e achava que nunca seria menina pra ele.
Afastei-me, passaram-se duas semanas, não liguei, não o procurei, confesso que senti muita saudade, adorava estar com ele e a mãe dele. Mas nunca tinha tido coragem de convidar eles pra minha casa, sem mesa, sem cadeiras, com um sofá rasgado, um banheiro sem teto, tudo no tijolo, num pé de morro. O que eu não esperava era que através do telefone da minha vizinha Dona Lucia, o Max descobrir meu endereço e me procurar. Foi uma surpresa muito ruim, ele apareceu, viu toda minha pobreza, mas pra minha surpresa, e emoção, ele era muito mais especial do que eu pensava, com os olhos rasos de lagrimas me disse:
-Então é por isso que você não fala onde mora?
Eu nem respondi, fiquei de cabeça baixa sem nada a dizer.
- Sandrinha, você não devia ter vergonha de ser pobre! Isso não é feio, não é defeito, e nem motivo pra se envergonhar. Ele disse.
- É eu sei... Sussurrei
-Sandrinha, eu vim aqui por que estamos com muita saudade de você. Disse
- Quando sua mãe souber a verdade, não vai querer que eu ande com você. Exclamei.
-Você está enganada! Minha mãe gosta de você, de verdade e pra ela assim como pra mim, não importa onde você mora, e sim quem você é.
-Eu escondi isso de vocês, não mereço a confiança de vocês. Exclamei.
-Sandrinha, você merece nossa confiança, admiração e amor, e é por isso que vim aqui, perguntei a sua vizinha como chegar, ela me passou o endereço, e eu vim aqui pra dizer que quero namorar com você! Naquele momento era o que eu mais temia, pois eu tinha me afastado justamente por isso, eu o adorava, mas não pensava em namorar com ele, não sentia atração nenhuma, e não queria magoá-lo, pois ele era especial demais, pra eu o fazer sofrer. Foi então que eu consegui entender o que acontecia com os meninos que eu gostava e que não namoravam comigo, era exatamente a mesma coisa, eles não queriam me magoar.
Olhei bem nos olhos dele e disse:
-Max, você é alguém que eu nunca vou esquecer, mas não quero namorar com você, pois te amo como um irmão, queria que você fosse embora e nunca mais me procurasse, vai ser melhor assim... Quem sabe um dia quando tudo passar poderemos ser bons amigos novamente.
-Você tem certeza? Eu não me importo com sua condição financeira, é isso? Perguntou.
-Não! Apenas não sinto o mesmo que você sente. Respondi.
- Sandrinha, eu vou embora da sua vida, mas saiba que se você quiser vou estar te esperando, pois você é a menina com quem eu quero me casar, pensa nisso! Disse isso, beijou minha mão e se foi.
Eu gostava tanto dele, da sua companhia, que quase corri atrás dele pra dizer que aceitava namorar com ele, mas me segurei, pois sabia que se eu fizesse isso eu estaria pensando apenas em mim... Ele iria se apegar ainda mais,
E depois, se eu o deixasse, o sofrimento seria maior.
Assim... Tudo recomeça novamente.
Com o fim da minha historia com o Tony, eu voltei a sair com as meninas para o baile da Giru’s Clube de Nova Iguaçu. Era uma noite de sábado, chuvosa, e fria, me lembro que eu fui ao baile sem vontade nenhuma, minha alto-estima estava no chão, eu não conseguia entender, todos os meninos que gostava, diziam me amar como pessoa, mas então porque nunca dava certo? Eu pensava.
Estava perdida em meus pensamentos, encostada em uma pilastra, quando começou a hora da musica lenta, quando um garoto loiro de cabelo bem lisinho vem em minha direção e me tira para dançar, a música era A Cruz e Espada do RPM, eu sem vontade alguma aceitei.
Dançamos, e eu ia saindo as pressas quando ele disse:
- Não queria só dançar com você, quero te conhecer!
-É! Prazer, Sandrinha! Respondi.
-Prazer, João Carlos! Você vem sempre aqui nesse baile?
- Venho! Respondi
-Ta afim de um refri? Eu pago! Ele disse
-Tudo bem! Respondi
Sentamos para tomar refrigerante e conversar... A vida é mesmo muito engraçada. Acho que naquele momento ele tava procurando uma menina pra ficar, e acabou ganhando uma grande amiga e companheira. Nossa amizade se estendeu, não sentia nenhuma atração por ele, e acho que com o passar do tempo ele também começou a me ver como amiga, começamos a sair juntos pra jogar totó no shopping, ir ao parque então, era todo domingo. Até que um dia em que ele me chamou pra ir à casa da tia dele, ele me avisou que ela era muito cheia de frescura, gostava de tomar chá em xícaras de porcelana, ler e que seu papo era chato, falava muito sobre filosofia oriental e etc. Falou também dos seus primos Marco Túlio, que disse ser muito legal, e Max seu primo metido a intelectual, que só pensava em estudar, ler, fazia até curso de alemão. Quando cheguei na casa deles fiquei deslumbrada, a casa ficava ao lado da praça do skate, tinha muitos jovens curtindo um som e andando de skate. A casa deles era enorme, a decoração era linda, e a tia dele, um doce, uma pessoa muito fina, educada e gentil, pra surpresa do João nos duas ficamos amigas, ela me chamou para tomar chá, eu adorei... Estávamos eu e ela batendo papo, quando de repente a porta da biblioteca se abre e sai de lá um rapaz alto, forte, muito branco e loiro, era o Max, nunca vou esquecer a maneira como ele me olhou, ele ficou um tempo parado me olhando, e depois veio tomar chá com a gente. Enquanto isso, João e Túlio estavam na praça do Skate me esperando.
- Oi! Prazer meu nome é Max, quem é você? Perguntou.
Dona Nice responde por mim
- Ela é a amiga do João! Sandrinha.
-È. Sou a amiga do João. Prazer!
Tomamos chá, e ele perguntou
- Você gosta de ler?
- Gostar eu gosto, mas não tenho muito acesso a livros não!
-Qual o livro que você mais gostou de ler? Ele perguntou
- Adoro Os Lusíadas - Luís De Camões, Gibran, e Dom Casmurro de Machado de Assis. Respondi
- Alem de ler, o que você gosta de fazer? Perguntou.
- Gosto de escrever sobre coisas do cotidiano, fazer poesia, dançar e jogar totó. Adoro jogar totó! Respondi.
- Legal, podemos marcar um dia pra irmos jogar totó? Perguntou.
- Claro! Respondi.
- Quer dar uma olhada na nossa biblioteca? Tem coisas bem legais. Perguntou.
- Quero sim! Respondi
Fomos à biblioteca, daquele momento em diante o Max deixava de ser o CDF retraído e calado, introvertido, e passava a ser um grande amigo. Descobri que tinha mais afinidades com ele do que com o João e o Túlio. Gostava deles, mas ao lado de Max eu aprendia coisas, conhecia coisas meu mundo se abria, ele sempre me mostrava algo que eu não conhecia e nossas conversas se estendiam...
A vida é mesmo engraçada, era sempre eu quem levava o fora, e acabei achando que ninguém nunca fosse me amar, mas tudo isso mudou quando conheci o Max. Max se apegou de tal maneira que tinha que me ver pelo menos duas vezes por semana, acho que era porque eu gostava de ouvir o que ele tinha pra falar, eu não sabia as coisas que ele sabia, mas queria aprender, queria ouvir, e ele se sentia importante, aceito e querido, já que pro pessoal da nossa idade, ele era o chato. Eu adorava estar com ele, mas tinha medo de falar que morava num barraco, pensei que ele deixaria de gostar de mim, pensei que um menino que estudava no Leopoldo, falava Inglês e alemão, nunca iria querer ser amigo de alguém como eu. Mas Max, além de querer minha amizade, se apaixonou por mim, e foi por esse motivo, após uma declaração dele, que resolvi nunca mais aparecer, pois não queria magoá-lo, e achava que nunca seria menina pra ele.
Afastei-me, passaram-se duas semanas, não liguei, não o procurei, confesso que senti muita saudade, adorava estar com ele e a mãe dele. Mas nunca tinha tido coragem de convidar eles pra minha casa, sem mesa, sem cadeiras, com um sofá rasgado, um banheiro sem teto, tudo no tijolo, num pé de morro. O que eu não esperava era que através do telefone da minha vizinha Dona Lucia, o Max descobrir meu endereço e me procurar. Foi uma surpresa muito ruim, ele apareceu, viu toda minha pobreza, mas pra minha surpresa, e emoção, ele era muito mais especial do que eu pensava, com os olhos rasos de lagrimas me disse:
-Então é por isso que você não fala onde mora?
Eu nem respondi, fiquei de cabeça baixa sem nada a dizer.
- Sandrinha, você não devia ter vergonha de ser pobre! Isso não é feio, não é defeito, e nem motivo pra se envergonhar. Ele disse.
- É eu sei... Sussurrei
-Sandrinha, eu vim aqui por que estamos com muita saudade de você. Disse
- Quando sua mãe souber a verdade, não vai querer que eu ande com você. Exclamei.
-Você está enganada! Minha mãe gosta de você, de verdade e pra ela assim como pra mim, não importa onde você mora, e sim quem você é.
-Eu escondi isso de vocês, não mereço a confiança de vocês. Exclamei.
-Sandrinha, você merece nossa confiança, admiração e amor, e é por isso que vim aqui, perguntei a sua vizinha como chegar, ela me passou o endereço, e eu vim aqui pra dizer que quero namorar com você! Naquele momento era o que eu mais temia, pois eu tinha me afastado justamente por isso, eu o adorava, mas não pensava em namorar com ele, não sentia atração nenhuma, e não queria magoá-lo, pois ele era especial demais, pra eu o fazer sofrer. Foi então que eu consegui entender o que acontecia com os meninos que eu gostava e que não namoravam comigo, era exatamente a mesma coisa, eles não queriam me magoar.
Olhei bem nos olhos dele e disse:
-Max, você é alguém que eu nunca vou esquecer, mas não quero namorar com você, pois te amo como um irmão, queria que você fosse embora e nunca mais me procurasse, vai ser melhor assim... Quem sabe um dia quando tudo passar poderemos ser bons amigos novamente.
-Você tem certeza? Eu não me importo com sua condição financeira, é isso? Perguntou.
-Não! Apenas não sinto o mesmo que você sente. Respondi.
- Sandrinha, eu vou embora da sua vida, mas saiba que se você quiser vou estar te esperando, pois você é a menina com quem eu quero me casar, pensa nisso! Disse isso, beijou minha mão e se foi.
Eu gostava tanto dele, da sua companhia, que quase corri atrás dele pra dizer que aceitava namorar com ele, mas me segurei, pois sabia que se eu fizesse isso eu estaria pensando apenas em mim... Ele iria se apegar ainda mais,
E depois, se eu o deixasse, o sofrimento seria maior.
Assim... Tudo recomeça novamente.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
NOVASS AMIZADES e UM ROMANCE INESQUECIVEL
Com o fim do meu namoro com o Gilberto, o adeus aos amigos do circo
E a tristeza do acidente da Valéria, o Bom Pastor ficou muito triste, eu precisava superar tudo aquilo, fui à busca de novos amigos, novos lugares.
Ao invés de ir para a sorveteria e da casa da Verinha, comecei a freqüentar o Shopping
De Nova Iguaçu, e os clubes de lá. Dando inicio a uma nova e inesquecível fase de minha vida.
Num desses passeios, estava no centro de Nova Iguaçu. Parei para perguntar a um camelô que vendia relógios que horas eram, foi quando ouvi uma voz atrás de mim, dizendo a hora, quando olhei, era um rapaz bonito, branco, de cabelos escuros, ele me deu um lindo sorriso e eu, tímida, correspondi. Ele disse:
- Você está com pressa ou pode tomar um sorvete?
- Posso sim! – respondi.
Me lembro que fiquei fascinada por ele, como se fosse um encantamento. Andamos pela rua brincando, rindo, ele fazia coisas engraçadas, e me fez descer e subir a escada rolante de um centro comercial, invertendo, descendo quando a escada subia e vice-versa, achei super divertido. Depois fomos jogar totó, jogamos a tarde toda e, finalmente, eu perguntei:
- A gente passou a tarde toda juntos e eu não perguntei seu nome, qual é?
- Artidônio. – ele respondeu – Mas todos me chamam de Tony. Prazer. E você, como se chama?
- Sandra, mas todos me chamam de Sandrinha.
- Posso te colocar um apelido?
- Pode.
- Vou te chamar de monstrinho.
- Monstrinho? Mas por quê?
- Você é uma menina estranha, incomum. Usa roupas largas, é diferente das outras meninas arrumadinhas que conheço.
- Mas é só isso? Eu sou feia demais?
- Não! Feia você não é! Apenas diferente, e eu gosto muito do seu jeito. Você vai ser o meu monstrinho, ta?
- Ta legal!
Foi tão lindo e sincero o jeito que ele disse que eu passei a amar o apelido. Então ele disse:
- Eu estou passando por um sério problema, sobre qual não quero falar, e foi muito bom encontrar alguém como você no meu caminho, foi um dia inesquecível, quero te ver de novo, pode ser?
- Claro que pode ser!
Mal sabia ele que tudo que eu mais queria naquele momento era ouvir aquilo, ouvi-lo dizer que queria me ver de novo.
Ele pediu um papel e uma caneta no bar onde estávamos tomando suco e escreveu a seguinte frase: “Monstrinho, você é assustadoramente especial, inacreditavelmente diferente. Foi bom conhecer você, me liga.” E colocou o telefone no bilhete. Ele me levou até o ponto do meu ônibus e me deu um beijo na testa. Fui pra casa sonhando... Ele tinha um pouco do Betinho no seu jeito alegre e louco de ser.
Passou uma semana e resolvi ligar, relutei muito para não ligar, mas sentia que precisava vê-lo novamente. Liguei e tive uma agradável surpresa, ele ficou tão feliz com minha ligação e disse:
- Monstrinho! Que bom que você ligou. Estava com medo de você ter perdido o papel, quero muito te ver, eu preciso muito te ver!
- Também queria te ver, por isso liguei.
- Você está fazendo o que agora?
- Como assim? Agora?
- É. Nesse momento.
- Nada, falando com você no telefone.
- Eu sei monstrinho. Eu quero saber se você tem alguma coisa pra fazer agora, na hora do almoço.
- Eu não!
- Vem almoçar comigo aqui em casa. Pega uma caneta e um papel que eu vou te passar o endereço.
- Mas seus pais estão em casa? Você não está sozinho não, não é?
- Não to sozinho não. Meus pais e irmãos estão aqui, pode vir.
Eu relutei, porém fui! Quando cheguei fiquei feliz, a casa estava cheia de gente, conheci a mãe dele, os irmãos... Nossa amizade era linda, ao meu lado ele parecia um garotinho de 5 anos, mas na verdade quem era a menina era eu, que tinha acabado de completar 15 anos. Ele já estava com uns 19 ou 20 anos. Tudo era tão real e sincero entre nós que a saudade machucava o peito, mas como não podia ser diferente, eu, a Sandrinha, sempre era tratada como a menina legal, que era ótima companhia, ótima parceira, mas sempre era dispensada como a namorada.
Eu fazia todos eles se sentirem valorizados, era amiga e compreensiva (acho que esse era o problema). Mas também tive um monte de meninos que me amavam tanto, tanto de dar pena. Acho que nós, seres humanos somos todos iguais nisso, só valorizamos o que não podemos ter.
Eu e o Tony passávamos as tardes de quarta e sexta no shopping de Nova Iguaçu jogando totó, bebendo refrigerante. Nossa amizade durou 3 meses, 3 meses de intensa alegria, até que um dia, Tony me chama pra conversar sério. Confesso que pensei que ele fosse me pedir em namoro, minha ansiedade era imensa, contava as horas para vê-lo. Nos encontramos no shopping, como sempre, mas nesse dia ele me levou para um outro lugar, um barzinho bem aconchegante, sentamos um de frente para o outro. Havia algo em seus olhos que me parecia um misto de dor e ternura. Podia ver em seus olhos um adeus. Pedimos suco de laranja. Então ele disse:
- Monstrinho, você foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos, você me da alegria, me faz passar horas felizes, como a muito tempo não acontecia.
- Tony, o que você ta querendo dizer? Você está com algum problema? Posso te ajudar?
- Não olhe para trás, não demonstre nada, a minha namorada está vindo.
Naquele momento eu me segurei para não agir de maneira egoísta e passional, foi um choque pra mim, afinal eu nem imaginava que ele tinha namorada. Então ela entra, para atrás de mim...
Ela era linda. Morena, cabelos longos, corpo escultural, bem vestida, e eu com aquelas roupas imensas e largas, tranças no cabelo. Foi aí que eu percebi que os homens podiam amar uma pessoa, mas na verdade só namoram com “mulheres” e não com “pessoas”. Então ela disse:
- Oi Tony! Tudo bem?
- Oi Meire, deixa eu te apresentar minha amiga, Monstrinho.
- Oi. – ela disse – Monstrinho? É apelido, não é?
- É sim. – respondi.
- Ah ta! – exclamou ela.
- Bem... Eu vou embora, pois já ta na minha hora. – disse eu – Foi um prazer conhecer a namorada do Tony.
Saí dali com sem rumo, com a mente nas nuvens, o coração apertado e baixa auto-estima. Estava andando sem rumo quando ouvi gritos ao longe, chamando por Monstrinho. Eu estava andando colada com a linha do trem de Nova Iguaçu, olhei para frente, pro lado, pra trás e não via ninguém, foi quando a voz gritou: “olha pra cima.” Eu então vi o Tony correndo como um louco pela passarela gritando: “monstrinho, me espera. Eu te amo!” E aquela frase me comoveu, era tudo que eu queria ouvir, percebi que também poderia ser amada, não por ser linda, mas por ser exatamente como sou. Esperei, e quando ele chegou perto me abraçou chorando, e disse:
- Vamos nos sentar em um lugar calmo, a gente precisa conversar.
- Tudo bem.
Sentamos na escada da estação de trem, eram mais de 18h e o movimento estava tranqüilo. Então ele disse:
- Quando sentei com você no barzinho era pra abrir meu coração, te contar um monte de coisas, mas eu não conseguia, pois eu sabia que iria te ferir.
- Faz mal não, pode falar.
- Eu namoro a Meire há 5 anos, mas com o tempo foi desgastando. A gente só ficava juntos pra transar, o resto do tempo eram brigas, eu nunca passei um dia com ela como passei com você, feliz de verdade.
- Por que você não falou logo no inicio que você tinha namorada?
- Não sei! Eu não queria estragar tudo, estava vivendo uma coisa diferente, e também não achei que pudesse gostar de você, achei que seriamos amigos pra sempre, mas agora descobri um sentimento forte e intenso por você, porém não vou continuar te enganando, vou falar pra você toda a verdade. A Meire está grávida de 3 meses e a família dela está cobrando casamento.
- Poxa! Tony, isso é muito sério. Vocês são responsáveis por essa vida, você tem que ajudar e apoiar ela nesse momento, e a melhor coisa pra nós, é não nos vermos mais.
- Não! Por favor! Não me diga que não vamos mais nos ver. Eu preciso de você pra me ouvir, pra me dar um pouco de alegria.
- Cara, você está sendo egoísta. E a minha alegria? E a da Meire? E a do bebê? Eu não posso ficar do lado de alguém que quero como namorado, apenas como amiga. A Meire precisa de você, e o bebê, de um pai. Vamos esquecer que nos conhecemos, e quem sabe um dia, depois da dor ter passado, a gente se esbarre.
Assim, em lágrimas, dizemos adeus, mas nunca esqueci toda essa história.
E a tristeza do acidente da Valéria, o Bom Pastor ficou muito triste, eu precisava superar tudo aquilo, fui à busca de novos amigos, novos lugares.
Ao invés de ir para a sorveteria e da casa da Verinha, comecei a freqüentar o Shopping
De Nova Iguaçu, e os clubes de lá. Dando inicio a uma nova e inesquecível fase de minha vida.
Num desses passeios, estava no centro de Nova Iguaçu. Parei para perguntar a um camelô que vendia relógios que horas eram, foi quando ouvi uma voz atrás de mim, dizendo a hora, quando olhei, era um rapaz bonito, branco, de cabelos escuros, ele me deu um lindo sorriso e eu, tímida, correspondi. Ele disse:
- Você está com pressa ou pode tomar um sorvete?
- Posso sim! – respondi.
Me lembro que fiquei fascinada por ele, como se fosse um encantamento. Andamos pela rua brincando, rindo, ele fazia coisas engraçadas, e me fez descer e subir a escada rolante de um centro comercial, invertendo, descendo quando a escada subia e vice-versa, achei super divertido. Depois fomos jogar totó, jogamos a tarde toda e, finalmente, eu perguntei:
- A gente passou a tarde toda juntos e eu não perguntei seu nome, qual é?
- Artidônio. – ele respondeu – Mas todos me chamam de Tony. Prazer. E você, como se chama?
- Sandra, mas todos me chamam de Sandrinha.
- Posso te colocar um apelido?
- Pode.
- Vou te chamar de monstrinho.
- Monstrinho? Mas por quê?
- Você é uma menina estranha, incomum. Usa roupas largas, é diferente das outras meninas arrumadinhas que conheço.
- Mas é só isso? Eu sou feia demais?
- Não! Feia você não é! Apenas diferente, e eu gosto muito do seu jeito. Você vai ser o meu monstrinho, ta?
- Ta legal!
Foi tão lindo e sincero o jeito que ele disse que eu passei a amar o apelido. Então ele disse:
- Eu estou passando por um sério problema, sobre qual não quero falar, e foi muito bom encontrar alguém como você no meu caminho, foi um dia inesquecível, quero te ver de novo, pode ser?
- Claro que pode ser!
Mal sabia ele que tudo que eu mais queria naquele momento era ouvir aquilo, ouvi-lo dizer que queria me ver de novo.
Ele pediu um papel e uma caneta no bar onde estávamos tomando suco e escreveu a seguinte frase: “Monstrinho, você é assustadoramente especial, inacreditavelmente diferente. Foi bom conhecer você, me liga.” E colocou o telefone no bilhete. Ele me levou até o ponto do meu ônibus e me deu um beijo na testa. Fui pra casa sonhando... Ele tinha um pouco do Betinho no seu jeito alegre e louco de ser.
Passou uma semana e resolvi ligar, relutei muito para não ligar, mas sentia que precisava vê-lo novamente. Liguei e tive uma agradável surpresa, ele ficou tão feliz com minha ligação e disse:
- Monstrinho! Que bom que você ligou. Estava com medo de você ter perdido o papel, quero muito te ver, eu preciso muito te ver!
- Também queria te ver, por isso liguei.
- Você está fazendo o que agora?
- Como assim? Agora?
- É. Nesse momento.
- Nada, falando com você no telefone.
- Eu sei monstrinho. Eu quero saber se você tem alguma coisa pra fazer agora, na hora do almoço.
- Eu não!
- Vem almoçar comigo aqui em casa. Pega uma caneta e um papel que eu vou te passar o endereço.
- Mas seus pais estão em casa? Você não está sozinho não, não é?
- Não to sozinho não. Meus pais e irmãos estão aqui, pode vir.
Eu relutei, porém fui! Quando cheguei fiquei feliz, a casa estava cheia de gente, conheci a mãe dele, os irmãos... Nossa amizade era linda, ao meu lado ele parecia um garotinho de 5 anos, mas na verdade quem era a menina era eu, que tinha acabado de completar 15 anos. Ele já estava com uns 19 ou 20 anos. Tudo era tão real e sincero entre nós que a saudade machucava o peito, mas como não podia ser diferente, eu, a Sandrinha, sempre era tratada como a menina legal, que era ótima companhia, ótima parceira, mas sempre era dispensada como a namorada.
Eu fazia todos eles se sentirem valorizados, era amiga e compreensiva (acho que esse era o problema). Mas também tive um monte de meninos que me amavam tanto, tanto de dar pena. Acho que nós, seres humanos somos todos iguais nisso, só valorizamos o que não podemos ter.
Eu e o Tony passávamos as tardes de quarta e sexta no shopping de Nova Iguaçu jogando totó, bebendo refrigerante. Nossa amizade durou 3 meses, 3 meses de intensa alegria, até que um dia, Tony me chama pra conversar sério. Confesso que pensei que ele fosse me pedir em namoro, minha ansiedade era imensa, contava as horas para vê-lo. Nos encontramos no shopping, como sempre, mas nesse dia ele me levou para um outro lugar, um barzinho bem aconchegante, sentamos um de frente para o outro. Havia algo em seus olhos que me parecia um misto de dor e ternura. Podia ver em seus olhos um adeus. Pedimos suco de laranja. Então ele disse:
- Monstrinho, você foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos, você me da alegria, me faz passar horas felizes, como a muito tempo não acontecia.
- Tony, o que você ta querendo dizer? Você está com algum problema? Posso te ajudar?
- Não olhe para trás, não demonstre nada, a minha namorada está vindo.
Naquele momento eu me segurei para não agir de maneira egoísta e passional, foi um choque pra mim, afinal eu nem imaginava que ele tinha namorada. Então ela entra, para atrás de mim...
Ela era linda. Morena, cabelos longos, corpo escultural, bem vestida, e eu com aquelas roupas imensas e largas, tranças no cabelo. Foi aí que eu percebi que os homens podiam amar uma pessoa, mas na verdade só namoram com “mulheres” e não com “pessoas”. Então ela disse:
- Oi Tony! Tudo bem?
- Oi Meire, deixa eu te apresentar minha amiga, Monstrinho.
- Oi. – ela disse – Monstrinho? É apelido, não é?
- É sim. – respondi.
- Ah ta! – exclamou ela.
- Bem... Eu vou embora, pois já ta na minha hora. – disse eu – Foi um prazer conhecer a namorada do Tony.
Saí dali com sem rumo, com a mente nas nuvens, o coração apertado e baixa auto-estima. Estava andando sem rumo quando ouvi gritos ao longe, chamando por Monstrinho. Eu estava andando colada com a linha do trem de Nova Iguaçu, olhei para frente, pro lado, pra trás e não via ninguém, foi quando a voz gritou: “olha pra cima.” Eu então vi o Tony correndo como um louco pela passarela gritando: “monstrinho, me espera. Eu te amo!” E aquela frase me comoveu, era tudo que eu queria ouvir, percebi que também poderia ser amada, não por ser linda, mas por ser exatamente como sou. Esperei, e quando ele chegou perto me abraçou chorando, e disse:
- Vamos nos sentar em um lugar calmo, a gente precisa conversar.
- Tudo bem.
Sentamos na escada da estação de trem, eram mais de 18h e o movimento estava tranqüilo. Então ele disse:
- Quando sentei com você no barzinho era pra abrir meu coração, te contar um monte de coisas, mas eu não conseguia, pois eu sabia que iria te ferir.
- Faz mal não, pode falar.
- Eu namoro a Meire há 5 anos, mas com o tempo foi desgastando. A gente só ficava juntos pra transar, o resto do tempo eram brigas, eu nunca passei um dia com ela como passei com você, feliz de verdade.
- Por que você não falou logo no inicio que você tinha namorada?
- Não sei! Eu não queria estragar tudo, estava vivendo uma coisa diferente, e também não achei que pudesse gostar de você, achei que seriamos amigos pra sempre, mas agora descobri um sentimento forte e intenso por você, porém não vou continuar te enganando, vou falar pra você toda a verdade. A Meire está grávida de 3 meses e a família dela está cobrando casamento.
- Poxa! Tony, isso é muito sério. Vocês são responsáveis por essa vida, você tem que ajudar e apoiar ela nesse momento, e a melhor coisa pra nós, é não nos vermos mais.
- Não! Por favor! Não me diga que não vamos mais nos ver. Eu preciso de você pra me ouvir, pra me dar um pouco de alegria.
- Cara, você está sendo egoísta. E a minha alegria? E a da Meire? E a do bebê? Eu não posso ficar do lado de alguém que quero como namorado, apenas como amiga. A Meire precisa de você, e o bebê, de um pai. Vamos esquecer que nos conhecemos, e quem sabe um dia, depois da dor ter passado, a gente se esbarre.
Assim, em lágrimas, dizemos adeus, mas nunca esqueci toda essa história.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O Acidente na curva da Bayer do Brasil
É... A vida segue seu rumo, amigos chegam, amigos partem, amigos ficam.
O Circo foi embora, mas meus queridos amigos antigos ainda estavam ali, como sempre.
Tudo voltou a ser como antes, tudo normal até chegar o dia do baile na Bayer do Brasil,
Um dia que marcaria as nossas vidas, pra sempre.
Esse baile era esperado por toda população jovem do Bom Pastor e das redondezas. Grandes atrações da época apareciam por lá, como: Doutor Silvana, Alberto Brizola, entre outros.
Como quase sempre, fui à casa da Verinha para que elas me arrumassem e para que elas me levassem ao baile. Lembro-me que neste dia o Marco e a Verinha fizeram as pazes depois de muito tempo brigados, fiquei muito feliz, pois adorava vê-los juntos, eles se amavam tanto e o amor deles me cativava, me fazia sonhar em um dia viver um amor como o deles. Fomos: eu, Nina, Elias, Elza e Verinha, que encontrou o Marcos Lá. Valéria e Claudia foram com seus namorados, separadas de nós, e os meninos do The Break City também compareceram ao baile, todos com seus grupos. Foram separados, mas se encontraram lá. Mais uma vez, lá estava eu, dando de cara com o Índio e sua amada.
O baile foi maravilhoso, todos dançaram e curtiram muito até a hora de ir embora, aí então, mais uma vez os grupos se foram, voltando todo mundo junto, menos a Valéria e a Cláudia, que seguiriam dali para um pagode. Elas podiam, afinal eram maiores de idade. Valéria passou de carro, abriu a janela e disse ao meu irmão:
- Lima, cuida bem da Sandrinha.
- Não se preocupa não, a Sandrinha vai dormir lá em casa. – disse a Verinha.
- Ta legal. – disse a Valéria – Tchau gente!
E o carro seguiu...
Quando chegamos na casa da verinha, fizemos o de sempre: tomar banho, trocar de roupa e comentar todos os fatos da festa do baile. Estávamos conversando, quando de repente ouvimos um barulho, como uma explosão. Senti um calafrio e um aperto no peito, mas nada falei. Ficamos preocupadas, mas fomos dormir. Umas três horas depois, um amigo de dona Eurípides foi lá para avisar que a Valéria tinha sofrido um acidente na curva da Bayer na volta de um pagode no centro de Belford Roxo. O acidente foi realmente grave e foi um milagre Claudia e Verinha terem escapado. O motorista, namorado de Claudia, teve um infarto fulminante ao volante. O veículo capotou, Claudia foi atirada pela janela do carro e Valéria ficou presa nas ferragens junto com seu namorado. Claudia, vendo que o carro começou a pegar fogo, correu em direção ao veículo, tentou desesperadamente abrir a porta, mas todas as tentativas foram em vão. Num ato heróico, encheu-se de coragem, pegou Valéria pelos braços, arrastou pela janela com toda força, mas a perna de Valéria foi rasgada, pois não tinha outro jeito, assim que Claudia tirou Valéria e conseguiu colocá-la num lugar seguro, o carro explodiu. O acidente foi um fato marcante na vida de Valéria que, perdeu seu namorado e ficou 1 ano sem andar direito e quando estava se recuperando, sofre um tombo, e novamente machuca a perna, tendo que continuar andar de muletas. Mas Valéria era uma guerreira, não se entregou, lutou, casou, montou seu negócio e mostrou que somos todos capazes de superar as dificuldades.
O Circo foi embora, mas meus queridos amigos antigos ainda estavam ali, como sempre.
Tudo voltou a ser como antes, tudo normal até chegar o dia do baile na Bayer do Brasil,
Um dia que marcaria as nossas vidas, pra sempre.
Esse baile era esperado por toda população jovem do Bom Pastor e das redondezas. Grandes atrações da época apareciam por lá, como: Doutor Silvana, Alberto Brizola, entre outros.
Como quase sempre, fui à casa da Verinha para que elas me arrumassem e para que elas me levassem ao baile. Lembro-me que neste dia o Marco e a Verinha fizeram as pazes depois de muito tempo brigados, fiquei muito feliz, pois adorava vê-los juntos, eles se amavam tanto e o amor deles me cativava, me fazia sonhar em um dia viver um amor como o deles. Fomos: eu, Nina, Elias, Elza e Verinha, que encontrou o Marcos Lá. Valéria e Claudia foram com seus namorados, separadas de nós, e os meninos do The Break City também compareceram ao baile, todos com seus grupos. Foram separados, mas se encontraram lá. Mais uma vez, lá estava eu, dando de cara com o Índio e sua amada.
O baile foi maravilhoso, todos dançaram e curtiram muito até a hora de ir embora, aí então, mais uma vez os grupos se foram, voltando todo mundo junto, menos a Valéria e a Cláudia, que seguiriam dali para um pagode. Elas podiam, afinal eram maiores de idade. Valéria passou de carro, abriu a janela e disse ao meu irmão:
- Lima, cuida bem da Sandrinha.
- Não se preocupa não, a Sandrinha vai dormir lá em casa. – disse a Verinha.
- Ta legal. – disse a Valéria – Tchau gente!
E o carro seguiu...
Quando chegamos na casa da verinha, fizemos o de sempre: tomar banho, trocar de roupa e comentar todos os fatos da festa do baile. Estávamos conversando, quando de repente ouvimos um barulho, como uma explosão. Senti um calafrio e um aperto no peito, mas nada falei. Ficamos preocupadas, mas fomos dormir. Umas três horas depois, um amigo de dona Eurípides foi lá para avisar que a Valéria tinha sofrido um acidente na curva da Bayer na volta de um pagode no centro de Belford Roxo. O acidente foi realmente grave e foi um milagre Claudia e Verinha terem escapado. O motorista, namorado de Claudia, teve um infarto fulminante ao volante. O veículo capotou, Claudia foi atirada pela janela do carro e Valéria ficou presa nas ferragens junto com seu namorado. Claudia, vendo que o carro começou a pegar fogo, correu em direção ao veículo, tentou desesperadamente abrir a porta, mas todas as tentativas foram em vão. Num ato heróico, encheu-se de coragem, pegou Valéria pelos braços, arrastou pela janela com toda força, mas a perna de Valéria foi rasgada, pois não tinha outro jeito, assim que Claudia tirou Valéria e conseguiu colocá-la num lugar seguro, o carro explodiu. O acidente foi um fato marcante na vida de Valéria que, perdeu seu namorado e ficou 1 ano sem andar direito e quando estava se recuperando, sofre um tombo, e novamente machuca a perna, tendo que continuar andar de muletas. Mas Valéria era uma guerreira, não se entregou, lutou, casou, montou seu negócio e mostrou que somos todos capazes de superar as dificuldades.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
O Circo
Desde que eu me entendo por gente, circo é algo que me fascina, principalmente palhaços, malabaristas e trapezistas. Me perdia em devaneios sonhando em ser uma palhaça malabarista.
O parque do Bom Pastor foi embora, dando vez ao circo, pequeno, porém era o motivo de muita alegria e diversão. Minha avó Euvira quando tinha dinheiro na mão só pensava em nos proporcionar grandes alegrias, as vezes em pequenas coisas como sorvetes e doces. Mas minha avó era tão querida, que sempre era presenteada com ingressos e doces. E por falar em doces, quero narrar também uma coisa que me marcou muito na infância: a época de Cosme e Damião. Crenças a parte, naquela época em que passávamos fome, e quando tinha frango ou carne era luxo, era festa, momento raro... Ficávamos o ano todo contando os meses, semanas e dias para as festas de Cosme e Damião, só assim comeríamos doces durante dias, além de ganharmos brinquedos que não podíamos comprar como bonecas, bambolê... Eu sumia de casa assim que o sol nascia e só voltava depois de escurecer com uma bolsa de supermercado cheia de doces.
Vamos falar de circo... Minha avó ganhou convites para a estréia, um rapaz chamado Edgard, que trabalhava numa obra deu a ela, que chegou toda feliz em casa, mostrando três convites, um para ela e os outros para eu e minha irmãzinha Beth. O meu entusiasmo era tanto que quase não conseguia me conter, ficava andando de um lado para o outro contando as horas e, finalmente 18h, não posso esquecer a sensação que senti, parece que estou vivendo essa emoção agora, só de lembrar o quanto o circo me fascinava e fascina.
Logo na entrada conheci um rapaz. Ele disse:
- Oi, sejam bem vindas!
- Obrigada – eu disse.
- Meu nome é Batatinha, e o seu?
- Sandrinha. Esta aqui é Beth, minha irmã e essa é minha avó Euvira.
- Oi, dona Euvira. Que bom que a senhora veio.
- Nós adoramos circo! – disse minha avó – Que bom que vocês vieram até Bom Pastor.
- É, mas agora vamos deixar de papo, pois o espetáculo vai começar!
Puxei a mão de minha avó e fomos correndo para dentro. Sentamos na primeira fileira. Nunca vou me esquecer, tinha uma mulher que andava de bicicleta numa corda. De repente aparecem dois palhaços... Nessa hora meu coração começou a bater mais forte e, para minha surpresa, um dos palhaços era nosso amigo Batatinha.
No final do espetáculo estávamos saindo quando Batatinha veio até nós e disse:
- Vocês gostaram?
- Nossa! Eu adorei! – eu disse – Eu adoro malabaristas e palhaços! Um dia ainda vou ser um palhaço também!
- Legal que você gostou! Vou te propor uma coisa então...
- O que?
- Fora do horário do espetáculo você é minha convidada para conhecer todos aqui, assistir nossos ensaios... O que acha?
- Caramba! Acho maravilhoso! É sério?
- É sim!
E assim aconteceu, foi algo inesquecível para mim participar da vida de um circo, assistir os ensaios, conviver com aquelas pessoas foi algo que me marcou e que nunca esqueci... Nem eu, nem minha irmã, que até hoje fala “Senti um friozinho na garagem”, frase que Batatinha falava quando o outro palhaço abanava o bumbum dele.
Foram dois meses de muitas descobertas e alegrias, até o dia da despedida, dia do circo ir para outro bairro. Foi um dia muito triste para mim, me despedir de todos aqueles amigos e, principalmente, de Batatinha, que me ensinava como ser palhaça, me fazia chorar de rir...
Antes de chegar perto, fiquei uns vinte minutos de longe, olhando todos trabalhando, desmontando o circo. Sentia tanto... Era uma angustia dentro do peito, era como se tivesse perdendo parte da minha família e, ao mesmo tempo, parte do meu mundo.
- Vim me despedir. – eu disse ao Batatinha, chorando.
- Sandrinha, não fica assim. – ele disse – Vida de artista circense é assim, não criamos raízes em nenhum lugar, porém onde passamos deixamos nossa semente de amor, amizade, alegria... Mas também deixamos e levamos muitas saudades de quem nos ama, e amamos.
- É... Eu sei...
- Vou te dar uma pequena lembrança para você nunca mais esquecer. – disse ele, colocando um nariz de palhaço em meu rosto. – Seu primeiro nariz, apenas o começo de sua trajetória de palhaça, um dia tenho certeza que vamos nos encontrar novamente em algum circo por aí!
- Tomara! Mas de qualquer maneira quero que você saiba que foi muito especial para mim.
Dei um beijo em seu rosto saí... Escondi-me durante horas, e quando o caminhão saiu, levando todos os meus amigos, levou também um pouco de mim.
O parque do Bom Pastor foi embora, dando vez ao circo, pequeno, porém era o motivo de muita alegria e diversão. Minha avó Euvira quando tinha dinheiro na mão só pensava em nos proporcionar grandes alegrias, as vezes em pequenas coisas como sorvetes e doces. Mas minha avó era tão querida, que sempre era presenteada com ingressos e doces. E por falar em doces, quero narrar também uma coisa que me marcou muito na infância: a época de Cosme e Damião. Crenças a parte, naquela época em que passávamos fome, e quando tinha frango ou carne era luxo, era festa, momento raro... Ficávamos o ano todo contando os meses, semanas e dias para as festas de Cosme e Damião, só assim comeríamos doces durante dias, além de ganharmos brinquedos que não podíamos comprar como bonecas, bambolê... Eu sumia de casa assim que o sol nascia e só voltava depois de escurecer com uma bolsa de supermercado cheia de doces.
Vamos falar de circo... Minha avó ganhou convites para a estréia, um rapaz chamado Edgard, que trabalhava numa obra deu a ela, que chegou toda feliz em casa, mostrando três convites, um para ela e os outros para eu e minha irmãzinha Beth. O meu entusiasmo era tanto que quase não conseguia me conter, ficava andando de um lado para o outro contando as horas e, finalmente 18h, não posso esquecer a sensação que senti, parece que estou vivendo essa emoção agora, só de lembrar o quanto o circo me fascinava e fascina.
Logo na entrada conheci um rapaz. Ele disse:
- Oi, sejam bem vindas!
- Obrigada – eu disse.
- Meu nome é Batatinha, e o seu?
- Sandrinha. Esta aqui é Beth, minha irmã e essa é minha avó Euvira.
- Oi, dona Euvira. Que bom que a senhora veio.
- Nós adoramos circo! – disse minha avó – Que bom que vocês vieram até Bom Pastor.
- É, mas agora vamos deixar de papo, pois o espetáculo vai começar!
Puxei a mão de minha avó e fomos correndo para dentro. Sentamos na primeira fileira. Nunca vou me esquecer, tinha uma mulher que andava de bicicleta numa corda. De repente aparecem dois palhaços... Nessa hora meu coração começou a bater mais forte e, para minha surpresa, um dos palhaços era nosso amigo Batatinha.
No final do espetáculo estávamos saindo quando Batatinha veio até nós e disse:
- Vocês gostaram?
- Nossa! Eu adorei! – eu disse – Eu adoro malabaristas e palhaços! Um dia ainda vou ser um palhaço também!
- Legal que você gostou! Vou te propor uma coisa então...
- O que?
- Fora do horário do espetáculo você é minha convidada para conhecer todos aqui, assistir nossos ensaios... O que acha?
- Caramba! Acho maravilhoso! É sério?
- É sim!
E assim aconteceu, foi algo inesquecível para mim participar da vida de um circo, assistir os ensaios, conviver com aquelas pessoas foi algo que me marcou e que nunca esqueci... Nem eu, nem minha irmã, que até hoje fala “Senti um friozinho na garagem”, frase que Batatinha falava quando o outro palhaço abanava o bumbum dele.
Foram dois meses de muitas descobertas e alegrias, até o dia da despedida, dia do circo ir para outro bairro. Foi um dia muito triste para mim, me despedir de todos aqueles amigos e, principalmente, de Batatinha, que me ensinava como ser palhaça, me fazia chorar de rir...
Antes de chegar perto, fiquei uns vinte minutos de longe, olhando todos trabalhando, desmontando o circo. Sentia tanto... Era uma angustia dentro do peito, era como se tivesse perdendo parte da minha família e, ao mesmo tempo, parte do meu mundo.
- Vim me despedir. – eu disse ao Batatinha, chorando.
- Sandrinha, não fica assim. – ele disse – Vida de artista circense é assim, não criamos raízes em nenhum lugar, porém onde passamos deixamos nossa semente de amor, amizade, alegria... Mas também deixamos e levamos muitas saudades de quem nos ama, e amamos.
- É... Eu sei...
- Vou te dar uma pequena lembrança para você nunca mais esquecer. – disse ele, colocando um nariz de palhaço em meu rosto. – Seu primeiro nariz, apenas o começo de sua trajetória de palhaça, um dia tenho certeza que vamos nos encontrar novamente em algum circo por aí!
- Tomara! Mas de qualquer maneira quero que você saiba que foi muito especial para mim.
Dei um beijo em seu rosto saí... Escondi-me durante horas, e quando o caminhão saiu, levando todos os meus amigos, levou também um pouco de mim.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Meu Primeiro Namorado
Todos os dias eu dava um jeito de ir à sorveteria do centro de Bom Pastor tomar sorvete, e acabei ficando amiga da Débora, que trabalhava na sorveteria. Assim como eu, também freqüentavam a sorveteria Marlene, Ivone e Ivete (irmã de Ivone). De tanto freqüentar, acabei trabalhando lá ganhando apenas uns trocados nos fins de semana. As meninas eram divertidas e legais, mas uma coisa me aborrecia na Débora, ela gostava de debochar dos outros e paquerar o namorado das outras. E foi em uma destas que ela acabou arrumando uma briga com a Babi, líder de uma gangue feminina. Babi era na dela, não costumava mexer com ninguém, apenas se defendia e não levava desaforos para casa. Mas o problema é que quando ela entrava em uma briga era violenta e não aceitava perder. A Débora gostava de irritar a Babi e sempre que a via com seu namorado ficava dando mole para ele, ou então, ficava cochichando e rindo. As meninas também gostavam de bagunça e riam junto com a Débora, eu ficava muito aborrecida, não gostava de vê-la implicando sem motivo com as pessoas. Um belo dia, quando voltávamos da casa da Marlene, eu, Débora, Ivone e Ivete fomos cercadas de longe pela Babi e sua gangue, Débora ficou apavorada e disse:
- Vamos voltar! Vamos voltar!
- Por quê? – eu perguntei meio surpresa.
- A Babi vai arrebentar a gente. – disse ela – Ela bate muito e anda com canivete.
- Ah é? Se você sabia disso, por que atiçou?
- Cala a boca! Eu vou me mandar. Se você quiser apanhar, pode ficar.
Ela e as outras meninas voltaram correndo para casa e eu segui meu caminho com medo e gritei para Babi:
- Babi, antes de você me bater eu quero falar com você. Depois pode vir uma de cada vez que eu encaro. Mas primeiro me responda umas perguntas.
- Ta – ela disse – pode falar!
- Algum dia mexi com você?
- Não!
- Já dei mole pro seu namorado?
- Não!
- Então por que você quer me bater?
- Porque você anda com aquela lá.
- Não sou como ela. Não faço o que ela faz. Apenas sou amiga dela, como poderia ser sua também, já que não tenho nada contra você.
- Sabe de uma coisa? Gostei de sua atitude, você é das minhas, tem coragem. A partir de agora não vou mexer com você.
E apertou minha mão. A partir daquele dia prestei mais atenção no ditado que diz “quem não deve não teme”. Usei a verdade, e contra a verdade não há argumentos. Se não tivesse tomado aquela atitude teria que viver me escondendo e fugindo, esse tipo de coisa não me agrada nem um pouco.
Mais um dia na sorveteria. Babi do outro lado da rua e Débora na sorveteria, agora parecia outra pessoa, nem se quer olhava para o lado onde estava Babi. Era um dia quente, o sol estava rachando, de repente me surge uma figura interessante, branco, baixinho, com topete e um violão nos braços, era o Gilberto. Era o tipo de garoto que você nunca olharia na rua, mas quando abria a boca, você morria por ele, cavaleiro, divertido e inteligente. Era famoso na baixada por ser um dos maiores capoeiristas de Belford Roxo e também um dos melhores guitarristas. Gostava de estudar e tinha planos de ter um futuro melhor. Ele parou ali, tomou vários sorvetes e tocou violão para nós até anoitecer. A tarde foi divertida como nunca, no intervalo de cada musica, uma piada, ele era o rei disso. Ele então pegou minha mão e disse:
- Vamos nos ver no sábado?
- Não posso ir longe – respondi.
- Aqui no parque mesmo.
- Ta legal, venho com minha avó.
E assim combinamos. Quando cheguei em casa fui logo contando para minha avó, que ouviu tudo atentamente e depois me contou sua história de amor.
Chega finalmente sábado. Eu, minha vó e minha irmã Beth nos arrumamos e fomos ao parque, no meio do caminho comemos muitos doces e sorvetes que minha vó ganhava, pois ela era muito querida. Estávamos andando quando alguém tapou meus olhos, imitando voz de mulher perguntou:
- Adivinha quem é?
- Gilberto – eu disse.
- Puxa! Como você sabia? – ele disse.
- É que eu sou adivinha. Você não sabia?
Ele riu, segurou minha mão e me puxou para a roda gigante. Minha vó, que mais parecia uma adolescente, me deu a maior força e ficou com minha irmãzinha. Brincamos muito no parque, fiquei fascinada, nunca tinha conhecido um menino tão divertido e legal. Na hora de ir embora, ele pediu à minha vó que me deixasse um pouco mais, que depois ele me levaria em casa. E assim aconteceu. Na hora de nos despedirmos, ele me deu um beijo e disse:
- Vamos nos encontrar amanhã? Quero que você conheça meus pais.
- Nossa! – eu disse assustada – Tão rápido!
- E por que não?
- Ta legal...
Manhã de domingo. Nos encontramos em frente a sorveteria e de lá fomos para a casa dele almoçar. Quando conheci a família dele fiquei encantada. Dona Gená, sua mãe, era morena clara, de cabelos negros, com corpo bem feito, destas mulheres de bunda e peito grandes e cintura fina, muito bonita. Seu Antonio, o pai, era bem baixinho, em torno de 1,60m de altura, careca e barrigudo, mas ele era muito engraçado, prestativo e de bom coração. Eram do tipo de pessoas que faziam a gente se sentir bem perto deles. Também tinham os dois irmãos, Marcelo e Robertinho. Era uma família muito unida e cheia de amor. Seu Antônio se tornou um pai para mim. Todas as vezes que eu chegava lá, ele ia correndo comprar refrigerante ou frutas, nunca se esquecia de comprar melancia, pois sabia que era minha fruta preferida. Dona Gená era uma grande amiga, me dava conselhos e dicas sobre todos os assuntos. Eu freqüentava todos os domingos a casa deles e sonhava em casar com Gilberto, ter filhos e fazer parte daquela família, mas parece que só eu queria isto. O Gilberto tocava no Rud’s Bar, um bar em São Vicente, e me levava para assistir os shows aos domingos, pois era o dia que acabava cedo. Num desses domingos estava eu em uma mesa, com mais duas meninas, que namoravam outros componentes da banda, quando uma menina se senta ao meu lado e pergunta:
- Você é a namoradinha do Beto?
- Sou sim! – eu disse – Por quê?
- E eu sou a amante querida...
- O quê?
- Eu saio com ele, você não sabe?
- Ah é? Então faça bom proveito.
Viro as costas e saio em direção à rua. Neste dia chovia muito e estava muito frio, eu usava um vestido “tomara-que-caia” e não havia levado casaco. Gilberto deixa a banda no palco e vem desesperado, me cobre com seu blusão, segura meu braço e diz:
- O que ela te disse?
- A verdade – eu falei.
- Que verdade?
- Que vocês têm um caso.
- Não vou negar nada pra você, mas você vai me ouvir diante dela.
Me puxou e me colocou frente a frente com a menina e diz a ela:
- Você está vendo esta aqui? Ela é uma garota de família. Eu namoro com ela e um dia quero me casar com uma menina como ela. Você é uma destas que o cara sai pra se divertir, mais nada. Me deixe em paz.
A menina saiu chorando, e eu muito magoada falo:
- Você pensa que pode fazer isso com as pessoas, você não tem sentimentos. O que te leva a pensar que ela é pior que eu?
Naquele instante percebi lágrimas em seus olhos negros. Ele então sobe ao palco e o vocalista da banda fala ao microfone:
- Esta música é um pedido de perdão do nosso guitarrista Beto para sua namorada Sandrinha. Então eles tocaram “Primavera” do Tim Maia. Apesar de gostar muito dele, aquele acontecimento abalou meus sentimentos, eu sempre esperei das pessoas, principalmente de um namorado, respeito pelos sentimentos alheios.
Chega o ano novo. Combinamos de passar na casa de seus pais, pois os meus iriam passar em Jacarepaguá, na casa de minha tia. O dia foi muito legal, almoçamos todos juntos, depois eu e Gilberto fomos a Vilar dos Teles, na casa dos primos e tia dele. Saímos de lá quase meia noite, era o tempo certo de voltarmos para Bom Pastor. Entramos num ônibus e sentamos no banco da frente, de repente, surge um rapaz na nossa frente com uma blusa idêntica a minha, que tinha o rosto da Madonna desenhado e uma calça preta, achei aquilo muito engraçado e ri, afinal estávamos iguais. Aquilo foi o suficiente para Gilberto arrumar uma briga daquelas e terminar o namoro. Descemos do ônibus na estrada de Belford Roxo, em frente ao campo que tinha uma entrada pro Gogó da ema. Ele quis seguir por ali, por aquele caminho que sempre detestei, ai eu disse que iria pelo outro caminho, que ele poderia ir sozinho. E foi assim... Nisso, os fogos começaram a romper. O novo ano enfim estava chegando, eu sozinha, senti em meu coração que este novo ano seria o inicio do fim de nosso namoro e que daquele ano em diante eu voltaria a ser uma menina só.
Ao atravessar uma pequena ponte que dava na rua da casa dele, avisto de longe Gilberto segurando a mão da menina que morava ao lado de sua casa, naquele instante eu entendi tudo, eu não havia lhe dado nenhum motivo, ele queria um motivo para terminar comigo. Continuei andando em sua direção calmamente, passei por ele sem falar nada e fui até sua casa lhe esperar. Então ele entra dizendo:
- Olha, se você quer ficar aqui com meus pais, pode ficar, mas eu não vou ficar com você.
- É mesmo? – eu disse irônica – Olha Beto, se você acha que vou ficar atrás de você, está muito enganado. Não quero voltar com você nem hoje nem nunca mais, pois você não é a pessoa que eu pensei que fosse. Só lhe esperei aqui pra te dizer que um homem de verdade não faz o que você fez. Era só terminar o namoro e ficar com quem você quer. Agora eu vou. Tchau!
Naquele momento, muito perdida, sem ter com quem falar, nem para onde ir e sem saber o que fazer, lembrei do Moises, que era um amigo nosso em comum e morava na mesma rua de Gilberto. Fui até a casa dele e chamei. Ele abriu a porta e disse:
- O que houve? Por que você está chorando assim?
- O Beto me traiu. – eu disse – arrumou briga sem motivo e nós terminamos.
- Sandrinha, o Beto é um cara legal, mas ele não leva ninguém a sério.
- Eu não tenho para onde ir, não quero ficar com a família dele enquanto ele está na rua se divertindo.
- Aqui em casa não da pra você ficar, mas na casa da minha tia ta tendo uma festa e só vai acabar lá para seis da manhã. A gente fica lá até clarear, depois você vai embora.
Passei a noite toda com a cabeça encostada no ombro dele, hora dormindo, hora acordada. Depois disso, Gilberto disse para a família dele que eu havia lhe traído com Moises, e que por esse motivo havia terminado o namoro comigo. Durante muito tempo eu continuei gostando de Gilberto, mas havia jurado que não voltaria para ele, mas isso não me impediu de guardar o sentimento em meu peito durante anos. Fazia mil loucuras só para vê-lo, como uma vez que passei dentro de um ônibus e o vi no ponto de outro ônibus, soltei correndo e entrei no mesmo ônibus que ele. Todos os dias ia na padaria do Muniz, no mesmo horário de sempre, para vê-lo passar dentro do ônibus quando vinha do trabalho, e apesar disto, tive diversas oportunidades de voltar com ele, mas não quis. Sempre achei que em um relacionamento tinha que haver confiança, e eu não poderia mais confiar nele. E assim terminou esta história de amor.
- Vamos voltar! Vamos voltar!
- Por quê? – eu perguntei meio surpresa.
- A Babi vai arrebentar a gente. – disse ela – Ela bate muito e anda com canivete.
- Ah é? Se você sabia disso, por que atiçou?
- Cala a boca! Eu vou me mandar. Se você quiser apanhar, pode ficar.
Ela e as outras meninas voltaram correndo para casa e eu segui meu caminho com medo e gritei para Babi:
- Babi, antes de você me bater eu quero falar com você. Depois pode vir uma de cada vez que eu encaro. Mas primeiro me responda umas perguntas.
- Ta – ela disse – pode falar!
- Algum dia mexi com você?
- Não!
- Já dei mole pro seu namorado?
- Não!
- Então por que você quer me bater?
- Porque você anda com aquela lá.
- Não sou como ela. Não faço o que ela faz. Apenas sou amiga dela, como poderia ser sua também, já que não tenho nada contra você.
- Sabe de uma coisa? Gostei de sua atitude, você é das minhas, tem coragem. A partir de agora não vou mexer com você.
E apertou minha mão. A partir daquele dia prestei mais atenção no ditado que diz “quem não deve não teme”. Usei a verdade, e contra a verdade não há argumentos. Se não tivesse tomado aquela atitude teria que viver me escondendo e fugindo, esse tipo de coisa não me agrada nem um pouco.
Mais um dia na sorveteria. Babi do outro lado da rua e Débora na sorveteria, agora parecia outra pessoa, nem se quer olhava para o lado onde estava Babi. Era um dia quente, o sol estava rachando, de repente me surge uma figura interessante, branco, baixinho, com topete e um violão nos braços, era o Gilberto. Era o tipo de garoto que você nunca olharia na rua, mas quando abria a boca, você morria por ele, cavaleiro, divertido e inteligente. Era famoso na baixada por ser um dos maiores capoeiristas de Belford Roxo e também um dos melhores guitarristas. Gostava de estudar e tinha planos de ter um futuro melhor. Ele parou ali, tomou vários sorvetes e tocou violão para nós até anoitecer. A tarde foi divertida como nunca, no intervalo de cada musica, uma piada, ele era o rei disso. Ele então pegou minha mão e disse:
- Vamos nos ver no sábado?
- Não posso ir longe – respondi.
- Aqui no parque mesmo.
- Ta legal, venho com minha avó.
E assim combinamos. Quando cheguei em casa fui logo contando para minha avó, que ouviu tudo atentamente e depois me contou sua história de amor.
Chega finalmente sábado. Eu, minha vó e minha irmã Beth nos arrumamos e fomos ao parque, no meio do caminho comemos muitos doces e sorvetes que minha vó ganhava, pois ela era muito querida. Estávamos andando quando alguém tapou meus olhos, imitando voz de mulher perguntou:
- Adivinha quem é?
- Gilberto – eu disse.
- Puxa! Como você sabia? – ele disse.
- É que eu sou adivinha. Você não sabia?
Ele riu, segurou minha mão e me puxou para a roda gigante. Minha vó, que mais parecia uma adolescente, me deu a maior força e ficou com minha irmãzinha. Brincamos muito no parque, fiquei fascinada, nunca tinha conhecido um menino tão divertido e legal. Na hora de ir embora, ele pediu à minha vó que me deixasse um pouco mais, que depois ele me levaria em casa. E assim aconteceu. Na hora de nos despedirmos, ele me deu um beijo e disse:
- Vamos nos encontrar amanhã? Quero que você conheça meus pais.
- Nossa! – eu disse assustada – Tão rápido!
- E por que não?
- Ta legal...
Manhã de domingo. Nos encontramos em frente a sorveteria e de lá fomos para a casa dele almoçar. Quando conheci a família dele fiquei encantada. Dona Gená, sua mãe, era morena clara, de cabelos negros, com corpo bem feito, destas mulheres de bunda e peito grandes e cintura fina, muito bonita. Seu Antonio, o pai, era bem baixinho, em torno de 1,60m de altura, careca e barrigudo, mas ele era muito engraçado, prestativo e de bom coração. Eram do tipo de pessoas que faziam a gente se sentir bem perto deles. Também tinham os dois irmãos, Marcelo e Robertinho. Era uma família muito unida e cheia de amor. Seu Antônio se tornou um pai para mim. Todas as vezes que eu chegava lá, ele ia correndo comprar refrigerante ou frutas, nunca se esquecia de comprar melancia, pois sabia que era minha fruta preferida. Dona Gená era uma grande amiga, me dava conselhos e dicas sobre todos os assuntos. Eu freqüentava todos os domingos a casa deles e sonhava em casar com Gilberto, ter filhos e fazer parte daquela família, mas parece que só eu queria isto. O Gilberto tocava no Rud’s Bar, um bar em São Vicente, e me levava para assistir os shows aos domingos, pois era o dia que acabava cedo. Num desses domingos estava eu em uma mesa, com mais duas meninas, que namoravam outros componentes da banda, quando uma menina se senta ao meu lado e pergunta:
- Você é a namoradinha do Beto?
- Sou sim! – eu disse – Por quê?
- E eu sou a amante querida...
- O quê?
- Eu saio com ele, você não sabe?
- Ah é? Então faça bom proveito.
Viro as costas e saio em direção à rua. Neste dia chovia muito e estava muito frio, eu usava um vestido “tomara-que-caia” e não havia levado casaco. Gilberto deixa a banda no palco e vem desesperado, me cobre com seu blusão, segura meu braço e diz:
- O que ela te disse?
- A verdade – eu falei.
- Que verdade?
- Que vocês têm um caso.
- Não vou negar nada pra você, mas você vai me ouvir diante dela.
Me puxou e me colocou frente a frente com a menina e diz a ela:
- Você está vendo esta aqui? Ela é uma garota de família. Eu namoro com ela e um dia quero me casar com uma menina como ela. Você é uma destas que o cara sai pra se divertir, mais nada. Me deixe em paz.
A menina saiu chorando, e eu muito magoada falo:
- Você pensa que pode fazer isso com as pessoas, você não tem sentimentos. O que te leva a pensar que ela é pior que eu?
Naquele instante percebi lágrimas em seus olhos negros. Ele então sobe ao palco e o vocalista da banda fala ao microfone:
- Esta música é um pedido de perdão do nosso guitarrista Beto para sua namorada Sandrinha. Então eles tocaram “Primavera” do Tim Maia. Apesar de gostar muito dele, aquele acontecimento abalou meus sentimentos, eu sempre esperei das pessoas, principalmente de um namorado, respeito pelos sentimentos alheios.
Chega o ano novo. Combinamos de passar na casa de seus pais, pois os meus iriam passar em Jacarepaguá, na casa de minha tia. O dia foi muito legal, almoçamos todos juntos, depois eu e Gilberto fomos a Vilar dos Teles, na casa dos primos e tia dele. Saímos de lá quase meia noite, era o tempo certo de voltarmos para Bom Pastor. Entramos num ônibus e sentamos no banco da frente, de repente, surge um rapaz na nossa frente com uma blusa idêntica a minha, que tinha o rosto da Madonna desenhado e uma calça preta, achei aquilo muito engraçado e ri, afinal estávamos iguais. Aquilo foi o suficiente para Gilberto arrumar uma briga daquelas e terminar o namoro. Descemos do ônibus na estrada de Belford Roxo, em frente ao campo que tinha uma entrada pro Gogó da ema. Ele quis seguir por ali, por aquele caminho que sempre detestei, ai eu disse que iria pelo outro caminho, que ele poderia ir sozinho. E foi assim... Nisso, os fogos começaram a romper. O novo ano enfim estava chegando, eu sozinha, senti em meu coração que este novo ano seria o inicio do fim de nosso namoro e que daquele ano em diante eu voltaria a ser uma menina só.
Ao atravessar uma pequena ponte que dava na rua da casa dele, avisto de longe Gilberto segurando a mão da menina que morava ao lado de sua casa, naquele instante eu entendi tudo, eu não havia lhe dado nenhum motivo, ele queria um motivo para terminar comigo. Continuei andando em sua direção calmamente, passei por ele sem falar nada e fui até sua casa lhe esperar. Então ele entra dizendo:
- Olha, se você quer ficar aqui com meus pais, pode ficar, mas eu não vou ficar com você.
- É mesmo? – eu disse irônica – Olha Beto, se você acha que vou ficar atrás de você, está muito enganado. Não quero voltar com você nem hoje nem nunca mais, pois você não é a pessoa que eu pensei que fosse. Só lhe esperei aqui pra te dizer que um homem de verdade não faz o que você fez. Era só terminar o namoro e ficar com quem você quer. Agora eu vou. Tchau!
Naquele momento, muito perdida, sem ter com quem falar, nem para onde ir e sem saber o que fazer, lembrei do Moises, que era um amigo nosso em comum e morava na mesma rua de Gilberto. Fui até a casa dele e chamei. Ele abriu a porta e disse:
- O que houve? Por que você está chorando assim?
- O Beto me traiu. – eu disse – arrumou briga sem motivo e nós terminamos.
- Sandrinha, o Beto é um cara legal, mas ele não leva ninguém a sério.
- Eu não tenho para onde ir, não quero ficar com a família dele enquanto ele está na rua se divertindo.
- Aqui em casa não da pra você ficar, mas na casa da minha tia ta tendo uma festa e só vai acabar lá para seis da manhã. A gente fica lá até clarear, depois você vai embora.
Passei a noite toda com a cabeça encostada no ombro dele, hora dormindo, hora acordada. Depois disso, Gilberto disse para a família dele que eu havia lhe traído com Moises, e que por esse motivo havia terminado o namoro comigo. Durante muito tempo eu continuei gostando de Gilberto, mas havia jurado que não voltaria para ele, mas isso não me impediu de guardar o sentimento em meu peito durante anos. Fazia mil loucuras só para vê-lo, como uma vez que passei dentro de um ônibus e o vi no ponto de outro ônibus, soltei correndo e entrei no mesmo ônibus que ele. Todos os dias ia na padaria do Muniz, no mesmo horário de sempre, para vê-lo passar dentro do ônibus quando vinha do trabalho, e apesar disto, tive diversas oportunidades de voltar com ele, mas não quis. Sempre achei que em um relacionamento tinha que haver confiança, e eu não poderia mais confiar nele. E assim terminou esta história de amor.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
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