Desde que eu me entendo por gente, circo é algo que me fascina, principalmente palhaços, malabaristas e trapezistas. Me perdia em devaneios sonhando em ser uma palhaça malabarista.
O parque do Bom Pastor foi embora, dando vez ao circo, pequeno, porém era o motivo de muita alegria e diversão. Minha avó Euvira quando tinha dinheiro na mão só pensava em nos proporcionar grandes alegrias, as vezes em pequenas coisas como sorvetes e doces. Mas minha avó era tão querida, que sempre era presenteada com ingressos e doces. E por falar em doces, quero narrar também uma coisa que me marcou muito na infância: a época de Cosme e Damião. Crenças a parte, naquela época em que passávamos fome, e quando tinha frango ou carne era luxo, era festa, momento raro... Ficávamos o ano todo contando os meses, semanas e dias para as festas de Cosme e Damião, só assim comeríamos doces durante dias, além de ganharmos brinquedos que não podíamos comprar como bonecas, bambolê... Eu sumia de casa assim que o sol nascia e só voltava depois de escurecer com uma bolsa de supermercado cheia de doces.
Vamos falar de circo... Minha avó ganhou convites para a estréia, um rapaz chamado Edgard, que trabalhava numa obra deu a ela, que chegou toda feliz em casa, mostrando três convites, um para ela e os outros para eu e minha irmãzinha Beth. O meu entusiasmo era tanto que quase não conseguia me conter, ficava andando de um lado para o outro contando as horas e, finalmente 18h, não posso esquecer a sensação que senti, parece que estou vivendo essa emoção agora, só de lembrar o quanto o circo me fascinava e fascina.
Logo na entrada conheci um rapaz. Ele disse:
- Oi, sejam bem vindas!
- Obrigada – eu disse.
- Meu nome é Batatinha, e o seu?
- Sandrinha. Esta aqui é Beth, minha irmã e essa é minha avó Euvira.
- Oi, dona Euvira. Que bom que a senhora veio.
- Nós adoramos circo! – disse minha avó – Que bom que vocês vieram até Bom Pastor.
- É, mas agora vamos deixar de papo, pois o espetáculo vai começar!
Puxei a mão de minha avó e fomos correndo para dentro. Sentamos na primeira fileira. Nunca vou me esquecer, tinha uma mulher que andava de bicicleta numa corda. De repente aparecem dois palhaços... Nessa hora meu coração começou a bater mais forte e, para minha surpresa, um dos palhaços era nosso amigo Batatinha.
No final do espetáculo estávamos saindo quando Batatinha veio até nós e disse:
- Vocês gostaram?
- Nossa! Eu adorei! – eu disse – Eu adoro malabaristas e palhaços! Um dia ainda vou ser um palhaço também!
- Legal que você gostou! Vou te propor uma coisa então...
- O que?
- Fora do horário do espetáculo você é minha convidada para conhecer todos aqui, assistir nossos ensaios... O que acha?
- Caramba! Acho maravilhoso! É sério?
- É sim!
E assim aconteceu, foi algo inesquecível para mim participar da vida de um circo, assistir os ensaios, conviver com aquelas pessoas foi algo que me marcou e que nunca esqueci... Nem eu, nem minha irmã, que até hoje fala “Senti um friozinho na garagem”, frase que Batatinha falava quando o outro palhaço abanava o bumbum dele.
Foram dois meses de muitas descobertas e alegrias, até o dia da despedida, dia do circo ir para outro bairro. Foi um dia muito triste para mim, me despedir de todos aqueles amigos e, principalmente, de Batatinha, que me ensinava como ser palhaça, me fazia chorar de rir...
Antes de chegar perto, fiquei uns vinte minutos de longe, olhando todos trabalhando, desmontando o circo. Sentia tanto... Era uma angustia dentro do peito, era como se tivesse perdendo parte da minha família e, ao mesmo tempo, parte do meu mundo.
- Vim me despedir. – eu disse ao Batatinha, chorando.
- Sandrinha, não fica assim. – ele disse – Vida de artista circense é assim, não criamos raízes em nenhum lugar, porém onde passamos deixamos nossa semente de amor, amizade, alegria... Mas também deixamos e levamos muitas saudades de quem nos ama, e amamos.
- É... Eu sei...
- Vou te dar uma pequena lembrança para você nunca mais esquecer. – disse ele, colocando um nariz de palhaço em meu rosto. – Seu primeiro nariz, apenas o começo de sua trajetória de palhaça, um dia tenho certeza que vamos nos encontrar novamente em algum circo por aí!
- Tomara! Mas de qualquer maneira quero que você saiba que foi muito especial para mim.
Dei um beijo em seu rosto saí... Escondi-me durante horas, e quando o caminhão saiu, levando todos os meus amigos, levou também um pouco de mim.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Meu Primeiro Namorado
Todos os dias eu dava um jeito de ir à sorveteria do centro de Bom Pastor tomar sorvete, e acabei ficando amiga da Débora, que trabalhava na sorveteria. Assim como eu, também freqüentavam a sorveteria Marlene, Ivone e Ivete (irmã de Ivone). De tanto freqüentar, acabei trabalhando lá ganhando apenas uns trocados nos fins de semana. As meninas eram divertidas e legais, mas uma coisa me aborrecia na Débora, ela gostava de debochar dos outros e paquerar o namorado das outras. E foi em uma destas que ela acabou arrumando uma briga com a Babi, líder de uma gangue feminina. Babi era na dela, não costumava mexer com ninguém, apenas se defendia e não levava desaforos para casa. Mas o problema é que quando ela entrava em uma briga era violenta e não aceitava perder. A Débora gostava de irritar a Babi e sempre que a via com seu namorado ficava dando mole para ele, ou então, ficava cochichando e rindo. As meninas também gostavam de bagunça e riam junto com a Débora, eu ficava muito aborrecida, não gostava de vê-la implicando sem motivo com as pessoas. Um belo dia, quando voltávamos da casa da Marlene, eu, Débora, Ivone e Ivete fomos cercadas de longe pela Babi e sua gangue, Débora ficou apavorada e disse:
- Vamos voltar! Vamos voltar!
- Por quê? – eu perguntei meio surpresa.
- A Babi vai arrebentar a gente. – disse ela – Ela bate muito e anda com canivete.
- Ah é? Se você sabia disso, por que atiçou?
- Cala a boca! Eu vou me mandar. Se você quiser apanhar, pode ficar.
Ela e as outras meninas voltaram correndo para casa e eu segui meu caminho com medo e gritei para Babi:
- Babi, antes de você me bater eu quero falar com você. Depois pode vir uma de cada vez que eu encaro. Mas primeiro me responda umas perguntas.
- Ta – ela disse – pode falar!
- Algum dia mexi com você?
- Não!
- Já dei mole pro seu namorado?
- Não!
- Então por que você quer me bater?
- Porque você anda com aquela lá.
- Não sou como ela. Não faço o que ela faz. Apenas sou amiga dela, como poderia ser sua também, já que não tenho nada contra você.
- Sabe de uma coisa? Gostei de sua atitude, você é das minhas, tem coragem. A partir de agora não vou mexer com você.
E apertou minha mão. A partir daquele dia prestei mais atenção no ditado que diz “quem não deve não teme”. Usei a verdade, e contra a verdade não há argumentos. Se não tivesse tomado aquela atitude teria que viver me escondendo e fugindo, esse tipo de coisa não me agrada nem um pouco.
Mais um dia na sorveteria. Babi do outro lado da rua e Débora na sorveteria, agora parecia outra pessoa, nem se quer olhava para o lado onde estava Babi. Era um dia quente, o sol estava rachando, de repente me surge uma figura interessante, branco, baixinho, com topete e um violão nos braços, era o Gilberto. Era o tipo de garoto que você nunca olharia na rua, mas quando abria a boca, você morria por ele, cavaleiro, divertido e inteligente. Era famoso na baixada por ser um dos maiores capoeiristas de Belford Roxo e também um dos melhores guitarristas. Gostava de estudar e tinha planos de ter um futuro melhor. Ele parou ali, tomou vários sorvetes e tocou violão para nós até anoitecer. A tarde foi divertida como nunca, no intervalo de cada musica, uma piada, ele era o rei disso. Ele então pegou minha mão e disse:
- Vamos nos ver no sábado?
- Não posso ir longe – respondi.
- Aqui no parque mesmo.
- Ta legal, venho com minha avó.
E assim combinamos. Quando cheguei em casa fui logo contando para minha avó, que ouviu tudo atentamente e depois me contou sua história de amor.
Chega finalmente sábado. Eu, minha vó e minha irmã Beth nos arrumamos e fomos ao parque, no meio do caminho comemos muitos doces e sorvetes que minha vó ganhava, pois ela era muito querida. Estávamos andando quando alguém tapou meus olhos, imitando voz de mulher perguntou:
- Adivinha quem é?
- Gilberto – eu disse.
- Puxa! Como você sabia? – ele disse.
- É que eu sou adivinha. Você não sabia?
Ele riu, segurou minha mão e me puxou para a roda gigante. Minha vó, que mais parecia uma adolescente, me deu a maior força e ficou com minha irmãzinha. Brincamos muito no parque, fiquei fascinada, nunca tinha conhecido um menino tão divertido e legal. Na hora de ir embora, ele pediu à minha vó que me deixasse um pouco mais, que depois ele me levaria em casa. E assim aconteceu. Na hora de nos despedirmos, ele me deu um beijo e disse:
- Vamos nos encontrar amanhã? Quero que você conheça meus pais.
- Nossa! – eu disse assustada – Tão rápido!
- E por que não?
- Ta legal...
Manhã de domingo. Nos encontramos em frente a sorveteria e de lá fomos para a casa dele almoçar. Quando conheci a família dele fiquei encantada. Dona Gená, sua mãe, era morena clara, de cabelos negros, com corpo bem feito, destas mulheres de bunda e peito grandes e cintura fina, muito bonita. Seu Antonio, o pai, era bem baixinho, em torno de 1,60m de altura, careca e barrigudo, mas ele era muito engraçado, prestativo e de bom coração. Eram do tipo de pessoas que faziam a gente se sentir bem perto deles. Também tinham os dois irmãos, Marcelo e Robertinho. Era uma família muito unida e cheia de amor. Seu Antônio se tornou um pai para mim. Todas as vezes que eu chegava lá, ele ia correndo comprar refrigerante ou frutas, nunca se esquecia de comprar melancia, pois sabia que era minha fruta preferida. Dona Gená era uma grande amiga, me dava conselhos e dicas sobre todos os assuntos. Eu freqüentava todos os domingos a casa deles e sonhava em casar com Gilberto, ter filhos e fazer parte daquela família, mas parece que só eu queria isto. O Gilberto tocava no Rud’s Bar, um bar em São Vicente, e me levava para assistir os shows aos domingos, pois era o dia que acabava cedo. Num desses domingos estava eu em uma mesa, com mais duas meninas, que namoravam outros componentes da banda, quando uma menina se senta ao meu lado e pergunta:
- Você é a namoradinha do Beto?
- Sou sim! – eu disse – Por quê?
- E eu sou a amante querida...
- O quê?
- Eu saio com ele, você não sabe?
- Ah é? Então faça bom proveito.
Viro as costas e saio em direção à rua. Neste dia chovia muito e estava muito frio, eu usava um vestido “tomara-que-caia” e não havia levado casaco. Gilberto deixa a banda no palco e vem desesperado, me cobre com seu blusão, segura meu braço e diz:
- O que ela te disse?
- A verdade – eu falei.
- Que verdade?
- Que vocês têm um caso.
- Não vou negar nada pra você, mas você vai me ouvir diante dela.
Me puxou e me colocou frente a frente com a menina e diz a ela:
- Você está vendo esta aqui? Ela é uma garota de família. Eu namoro com ela e um dia quero me casar com uma menina como ela. Você é uma destas que o cara sai pra se divertir, mais nada. Me deixe em paz.
A menina saiu chorando, e eu muito magoada falo:
- Você pensa que pode fazer isso com as pessoas, você não tem sentimentos. O que te leva a pensar que ela é pior que eu?
Naquele instante percebi lágrimas em seus olhos negros. Ele então sobe ao palco e o vocalista da banda fala ao microfone:
- Esta música é um pedido de perdão do nosso guitarrista Beto para sua namorada Sandrinha. Então eles tocaram “Primavera” do Tim Maia. Apesar de gostar muito dele, aquele acontecimento abalou meus sentimentos, eu sempre esperei das pessoas, principalmente de um namorado, respeito pelos sentimentos alheios.
Chega o ano novo. Combinamos de passar na casa de seus pais, pois os meus iriam passar em Jacarepaguá, na casa de minha tia. O dia foi muito legal, almoçamos todos juntos, depois eu e Gilberto fomos a Vilar dos Teles, na casa dos primos e tia dele. Saímos de lá quase meia noite, era o tempo certo de voltarmos para Bom Pastor. Entramos num ônibus e sentamos no banco da frente, de repente, surge um rapaz na nossa frente com uma blusa idêntica a minha, que tinha o rosto da Madonna desenhado e uma calça preta, achei aquilo muito engraçado e ri, afinal estávamos iguais. Aquilo foi o suficiente para Gilberto arrumar uma briga daquelas e terminar o namoro. Descemos do ônibus na estrada de Belford Roxo, em frente ao campo que tinha uma entrada pro Gogó da ema. Ele quis seguir por ali, por aquele caminho que sempre detestei, ai eu disse que iria pelo outro caminho, que ele poderia ir sozinho. E foi assim... Nisso, os fogos começaram a romper. O novo ano enfim estava chegando, eu sozinha, senti em meu coração que este novo ano seria o inicio do fim de nosso namoro e que daquele ano em diante eu voltaria a ser uma menina só.
Ao atravessar uma pequena ponte que dava na rua da casa dele, avisto de longe Gilberto segurando a mão da menina que morava ao lado de sua casa, naquele instante eu entendi tudo, eu não havia lhe dado nenhum motivo, ele queria um motivo para terminar comigo. Continuei andando em sua direção calmamente, passei por ele sem falar nada e fui até sua casa lhe esperar. Então ele entra dizendo:
- Olha, se você quer ficar aqui com meus pais, pode ficar, mas eu não vou ficar com você.
- É mesmo? – eu disse irônica – Olha Beto, se você acha que vou ficar atrás de você, está muito enganado. Não quero voltar com você nem hoje nem nunca mais, pois você não é a pessoa que eu pensei que fosse. Só lhe esperei aqui pra te dizer que um homem de verdade não faz o que você fez. Era só terminar o namoro e ficar com quem você quer. Agora eu vou. Tchau!
Naquele momento, muito perdida, sem ter com quem falar, nem para onde ir e sem saber o que fazer, lembrei do Moises, que era um amigo nosso em comum e morava na mesma rua de Gilberto. Fui até a casa dele e chamei. Ele abriu a porta e disse:
- O que houve? Por que você está chorando assim?
- O Beto me traiu. – eu disse – arrumou briga sem motivo e nós terminamos.
- Sandrinha, o Beto é um cara legal, mas ele não leva ninguém a sério.
- Eu não tenho para onde ir, não quero ficar com a família dele enquanto ele está na rua se divertindo.
- Aqui em casa não da pra você ficar, mas na casa da minha tia ta tendo uma festa e só vai acabar lá para seis da manhã. A gente fica lá até clarear, depois você vai embora.
Passei a noite toda com a cabeça encostada no ombro dele, hora dormindo, hora acordada. Depois disso, Gilberto disse para a família dele que eu havia lhe traído com Moises, e que por esse motivo havia terminado o namoro comigo. Durante muito tempo eu continuei gostando de Gilberto, mas havia jurado que não voltaria para ele, mas isso não me impediu de guardar o sentimento em meu peito durante anos. Fazia mil loucuras só para vê-lo, como uma vez que passei dentro de um ônibus e o vi no ponto de outro ônibus, soltei correndo e entrei no mesmo ônibus que ele. Todos os dias ia na padaria do Muniz, no mesmo horário de sempre, para vê-lo passar dentro do ônibus quando vinha do trabalho, e apesar disto, tive diversas oportunidades de voltar com ele, mas não quis. Sempre achei que em um relacionamento tinha que haver confiança, e eu não poderia mais confiar nele. E assim terminou esta história de amor.
- Vamos voltar! Vamos voltar!
- Por quê? – eu perguntei meio surpresa.
- A Babi vai arrebentar a gente. – disse ela – Ela bate muito e anda com canivete.
- Ah é? Se você sabia disso, por que atiçou?
- Cala a boca! Eu vou me mandar. Se você quiser apanhar, pode ficar.
Ela e as outras meninas voltaram correndo para casa e eu segui meu caminho com medo e gritei para Babi:
- Babi, antes de você me bater eu quero falar com você. Depois pode vir uma de cada vez que eu encaro. Mas primeiro me responda umas perguntas.
- Ta – ela disse – pode falar!
- Algum dia mexi com você?
- Não!
- Já dei mole pro seu namorado?
- Não!
- Então por que você quer me bater?
- Porque você anda com aquela lá.
- Não sou como ela. Não faço o que ela faz. Apenas sou amiga dela, como poderia ser sua também, já que não tenho nada contra você.
- Sabe de uma coisa? Gostei de sua atitude, você é das minhas, tem coragem. A partir de agora não vou mexer com você.
E apertou minha mão. A partir daquele dia prestei mais atenção no ditado que diz “quem não deve não teme”. Usei a verdade, e contra a verdade não há argumentos. Se não tivesse tomado aquela atitude teria que viver me escondendo e fugindo, esse tipo de coisa não me agrada nem um pouco.
Mais um dia na sorveteria. Babi do outro lado da rua e Débora na sorveteria, agora parecia outra pessoa, nem se quer olhava para o lado onde estava Babi. Era um dia quente, o sol estava rachando, de repente me surge uma figura interessante, branco, baixinho, com topete e um violão nos braços, era o Gilberto. Era o tipo de garoto que você nunca olharia na rua, mas quando abria a boca, você morria por ele, cavaleiro, divertido e inteligente. Era famoso na baixada por ser um dos maiores capoeiristas de Belford Roxo e também um dos melhores guitarristas. Gostava de estudar e tinha planos de ter um futuro melhor. Ele parou ali, tomou vários sorvetes e tocou violão para nós até anoitecer. A tarde foi divertida como nunca, no intervalo de cada musica, uma piada, ele era o rei disso. Ele então pegou minha mão e disse:
- Vamos nos ver no sábado?
- Não posso ir longe – respondi.
- Aqui no parque mesmo.
- Ta legal, venho com minha avó.
E assim combinamos. Quando cheguei em casa fui logo contando para minha avó, que ouviu tudo atentamente e depois me contou sua história de amor.
Chega finalmente sábado. Eu, minha vó e minha irmã Beth nos arrumamos e fomos ao parque, no meio do caminho comemos muitos doces e sorvetes que minha vó ganhava, pois ela era muito querida. Estávamos andando quando alguém tapou meus olhos, imitando voz de mulher perguntou:
- Adivinha quem é?
- Gilberto – eu disse.
- Puxa! Como você sabia? – ele disse.
- É que eu sou adivinha. Você não sabia?
Ele riu, segurou minha mão e me puxou para a roda gigante. Minha vó, que mais parecia uma adolescente, me deu a maior força e ficou com minha irmãzinha. Brincamos muito no parque, fiquei fascinada, nunca tinha conhecido um menino tão divertido e legal. Na hora de ir embora, ele pediu à minha vó que me deixasse um pouco mais, que depois ele me levaria em casa. E assim aconteceu. Na hora de nos despedirmos, ele me deu um beijo e disse:
- Vamos nos encontrar amanhã? Quero que você conheça meus pais.
- Nossa! – eu disse assustada – Tão rápido!
- E por que não?
- Ta legal...
Manhã de domingo. Nos encontramos em frente a sorveteria e de lá fomos para a casa dele almoçar. Quando conheci a família dele fiquei encantada. Dona Gená, sua mãe, era morena clara, de cabelos negros, com corpo bem feito, destas mulheres de bunda e peito grandes e cintura fina, muito bonita. Seu Antonio, o pai, era bem baixinho, em torno de 1,60m de altura, careca e barrigudo, mas ele era muito engraçado, prestativo e de bom coração. Eram do tipo de pessoas que faziam a gente se sentir bem perto deles. Também tinham os dois irmãos, Marcelo e Robertinho. Era uma família muito unida e cheia de amor. Seu Antônio se tornou um pai para mim. Todas as vezes que eu chegava lá, ele ia correndo comprar refrigerante ou frutas, nunca se esquecia de comprar melancia, pois sabia que era minha fruta preferida. Dona Gená era uma grande amiga, me dava conselhos e dicas sobre todos os assuntos. Eu freqüentava todos os domingos a casa deles e sonhava em casar com Gilberto, ter filhos e fazer parte daquela família, mas parece que só eu queria isto. O Gilberto tocava no Rud’s Bar, um bar em São Vicente, e me levava para assistir os shows aos domingos, pois era o dia que acabava cedo. Num desses domingos estava eu em uma mesa, com mais duas meninas, que namoravam outros componentes da banda, quando uma menina se senta ao meu lado e pergunta:
- Você é a namoradinha do Beto?
- Sou sim! – eu disse – Por quê?
- E eu sou a amante querida...
- O quê?
- Eu saio com ele, você não sabe?
- Ah é? Então faça bom proveito.
Viro as costas e saio em direção à rua. Neste dia chovia muito e estava muito frio, eu usava um vestido “tomara-que-caia” e não havia levado casaco. Gilberto deixa a banda no palco e vem desesperado, me cobre com seu blusão, segura meu braço e diz:
- O que ela te disse?
- A verdade – eu falei.
- Que verdade?
- Que vocês têm um caso.
- Não vou negar nada pra você, mas você vai me ouvir diante dela.
Me puxou e me colocou frente a frente com a menina e diz a ela:
- Você está vendo esta aqui? Ela é uma garota de família. Eu namoro com ela e um dia quero me casar com uma menina como ela. Você é uma destas que o cara sai pra se divertir, mais nada. Me deixe em paz.
A menina saiu chorando, e eu muito magoada falo:
- Você pensa que pode fazer isso com as pessoas, você não tem sentimentos. O que te leva a pensar que ela é pior que eu?
Naquele instante percebi lágrimas em seus olhos negros. Ele então sobe ao palco e o vocalista da banda fala ao microfone:
- Esta música é um pedido de perdão do nosso guitarrista Beto para sua namorada Sandrinha. Então eles tocaram “Primavera” do Tim Maia. Apesar de gostar muito dele, aquele acontecimento abalou meus sentimentos, eu sempre esperei das pessoas, principalmente de um namorado, respeito pelos sentimentos alheios.
Chega o ano novo. Combinamos de passar na casa de seus pais, pois os meus iriam passar em Jacarepaguá, na casa de minha tia. O dia foi muito legal, almoçamos todos juntos, depois eu e Gilberto fomos a Vilar dos Teles, na casa dos primos e tia dele. Saímos de lá quase meia noite, era o tempo certo de voltarmos para Bom Pastor. Entramos num ônibus e sentamos no banco da frente, de repente, surge um rapaz na nossa frente com uma blusa idêntica a minha, que tinha o rosto da Madonna desenhado e uma calça preta, achei aquilo muito engraçado e ri, afinal estávamos iguais. Aquilo foi o suficiente para Gilberto arrumar uma briga daquelas e terminar o namoro. Descemos do ônibus na estrada de Belford Roxo, em frente ao campo que tinha uma entrada pro Gogó da ema. Ele quis seguir por ali, por aquele caminho que sempre detestei, ai eu disse que iria pelo outro caminho, que ele poderia ir sozinho. E foi assim... Nisso, os fogos começaram a romper. O novo ano enfim estava chegando, eu sozinha, senti em meu coração que este novo ano seria o inicio do fim de nosso namoro e que daquele ano em diante eu voltaria a ser uma menina só.
Ao atravessar uma pequena ponte que dava na rua da casa dele, avisto de longe Gilberto segurando a mão da menina que morava ao lado de sua casa, naquele instante eu entendi tudo, eu não havia lhe dado nenhum motivo, ele queria um motivo para terminar comigo. Continuei andando em sua direção calmamente, passei por ele sem falar nada e fui até sua casa lhe esperar. Então ele entra dizendo:
- Olha, se você quer ficar aqui com meus pais, pode ficar, mas eu não vou ficar com você.
- É mesmo? – eu disse irônica – Olha Beto, se você acha que vou ficar atrás de você, está muito enganado. Não quero voltar com você nem hoje nem nunca mais, pois você não é a pessoa que eu pensei que fosse. Só lhe esperei aqui pra te dizer que um homem de verdade não faz o que você fez. Era só terminar o namoro e ficar com quem você quer. Agora eu vou. Tchau!
Naquele momento, muito perdida, sem ter com quem falar, nem para onde ir e sem saber o que fazer, lembrei do Moises, que era um amigo nosso em comum e morava na mesma rua de Gilberto. Fui até a casa dele e chamei. Ele abriu a porta e disse:
- O que houve? Por que você está chorando assim?
- O Beto me traiu. – eu disse – arrumou briga sem motivo e nós terminamos.
- Sandrinha, o Beto é um cara legal, mas ele não leva ninguém a sério.
- Eu não tenho para onde ir, não quero ficar com a família dele enquanto ele está na rua se divertindo.
- Aqui em casa não da pra você ficar, mas na casa da minha tia ta tendo uma festa e só vai acabar lá para seis da manhã. A gente fica lá até clarear, depois você vai embora.
Passei a noite toda com a cabeça encostada no ombro dele, hora dormindo, hora acordada. Depois disso, Gilberto disse para a família dele que eu havia lhe traído com Moises, e que por esse motivo havia terminado o namoro comigo. Durante muito tempo eu continuei gostando de Gilberto, mas havia jurado que não voltaria para ele, mas isso não me impediu de guardar o sentimento em meu peito durante anos. Fazia mil loucuras só para vê-lo, como uma vez que passei dentro de um ônibus e o vi no ponto de outro ônibus, soltei correndo e entrei no mesmo ônibus que ele. Todos os dias ia na padaria do Muniz, no mesmo horário de sempre, para vê-lo passar dentro do ônibus quando vinha do trabalho, e apesar disto, tive diversas oportunidades de voltar com ele, mas não quis. Sempre achei que em um relacionamento tinha que haver confiança, e eu não poderia mais confiar nele. E assim terminou esta história de amor.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
O Índio e eu
O Índio e eu
Tempos depois...
Dia do ensaio do bloco de carnaval do Funchal. Funchal era um cara magro, alto, branco de cabelos escorridos até os ombros, ele era quase uma lenda, um personagem, uma figura.
A Historia dele que mais se comentava foi dele ter levado mais de 30 tiros e 10 facadas ao mesmo tempo e ter sobrevivido, o pessoal dizia em zoação que ele era um zumbi, que ele era eterno. Rsrsrs...
Para assistir aos ensaios do bloco, todo Bom Pastor se aglomerava no espaço em frente à quadra, se é que podemos chamar assim. Era uma casa com um terraço bem grande e um imenso quintal, mas era muito legal, afinal, ali o povo não tinha escola de samba, não tinha acesso a nenhum tipo de lazer, e esse espaço era algo muito importante para nós, ali surgiram passistas e percursionistas.
Nesse dia, a Nina como fazia sempre, foi pedir a minha mãe para eu ir com ela, estávamos conversando, eu, Nina, e Nadia, quando o Índio passou por nós, e pela primeira vez eu percebi que ele me olhou diferente, fiquei tão feliz que não me contive e disse as meninas:
- Vocês viram? Ele olhou pra mim! Finalmente ele me notou.
Elas começaram a rir, e a Nina disse:
- Como assim ele te notou? Ele já te notou há muito tempo, ele é amigo do teu irmão, e você não é invisível, é? Rsrsrs...
Eu respondi:
- Você entendeu... Ele parece estar diferente, algo nele está mudado.
De repente nosso clima de descontração é interrompido, quando olho para cima da quadra e vejo meu irmão cercado de caras mal encarados, vou a direção ao Ricardo e digo:
- Ricardo, Ricardo acho que meu irmão está com problemas, tem uns caras estranhos aqui na área cercando ele, acho que querem pegar ele.
Ricardo responde:
- Fica calma Sandrinha, ninguém vai pegar o Lima, vou lá pra ver o que está acontecendo.
Assim ele fez, reuniu os meninos de seu grupo e foi até onde meu irmão estava, eu como sempre abusada, fui atrás.
-Algum problema ai Lima?! - Exclamou interrogando o Ricardo.
Meu irmão, como sempre calmo, avesso a brigas e confusões respondeu:
- Nenhum problema não!
Falando isso ele estende a mão para o cara que o queria pegar, e o cara não aperta a sua mão e continua o encarando.
Ricardo então diz:
- Tu não vai apertar a mão do cara não? Qual é a tua? Ta querendo briga mesmo?
Vendo que meu irmão não estava mais só, e que a melhor atitude seria ele sair dali, o cara apertou a mão do meu irmão, virou as costas e seguiu seu rumo.
- Lima, você não é de confusão, não entendi essa parada, o que ta acontecendo? - Perguntou o Ricardo.
Meu irmão calmo como sempre respondeu:
- Cara, ele é de um grupo de break rival, e nós ganhamos dele no ultimo concurso.
Ricardo diz:
- Continue como você é! Não se meta em encrencas.
Tudo acalmou, e eu volto para perto das meninas... E mais uma vez o Índio passa me olhando, nesse intervalo, vejo uma linda mulata sambando, de short, top e sandálias douradas, ela era muito bonita, e sambava muito. Cara de pau como sou, não me contive, esperei a primeira oportunidade para falar com ela, assim que ela sentou para tomar um copo de água eu fui até ela e disse:
- Caraça! Você samba muito!
Ela, com cara de poucos amigos, e tipo pensando, “essa daí gosta de mulher”, me olhou com cara de desprezo e disse:
- Você acha?
Eu como sempre ingênua e espontânea digo:
- Nossa! Muito! E você também é muito bonita.
Naquele momento acho que ela percebeu que eu era apenas uma menina maluquinha que não segurava as emoções e a língua, e riu pra mim.
Então ela disse:
- Você não samba?
Eu respondi:
- Quem? Eu? Não! Porque?
Ela responde:
- Bem, é que estamos precisando de uma menina no bloco pra ser a princesa do bloco, e você poderia entrar nessa, o que acha?
Eu respondo:
- Eu? Não! Sou muito desajeitada, não sou bonita, não tenho como comprar a roupa, e não sei sambar.
Ela ri e fala:
-Vamos por partes, desajeitada agente dá jeito, bonita você é, roupa agente arruma, e sambar eu te ensino, o que mais?
Eu:
- Mais nada... Mas não sei se vai dar certo!
Ela:
-Confie em mim, deixa o resto comigo! Você será a nossa passista, a nossa princesa, além do mais é um bloco, não é uma escola de samba.
Eu disse:
- Ta legal, vou tentar.
Ela:
-Amanhã te vejo na minha casa, passa lá depois do almoço.
Deu-me o endereço, e voltou pro ensaio.
No Dia seguinte...
Fui à casa da Merilin, como havíamos combinado, e tive uma imensa surpresa: aquela menina descolada que usava roupas sensuais era uma excelente filha, e dona de casa, tomava conta da irmã ma nova, que aliás, era loira de olhos azuis, o que causava comentários entre os vizinhos, afinal a Merilin era bem negra, mas as duas eram filhas de pais diferentes.
Ela então pegou um vestido velho tipo vestido de 15 anos, com filó e tal, e disse:
- Essa vai ser sua roupa!
Eu respondi interrogando:
-Mas eu não vou colocar o corpo todo de fora não, né? Alem de ter vergonha, sou muito feia de corpo, tenho estômago alto, peitão e pernas finas, ficaria ridículo.
Ela diz:
- Fica tranqüila. Você não precisa mostrar o corpo assim... Você não vai ser rainha de bateria, esse é o meu lugar, você vai ser apenas a representante do bairro, a princesa do bloco.
A Merilin se tornou uma grande amiga. Ensaiávamos todos os dias, ela era uma garota bem diferente quando estava no bloco, de que quando estava em casa, as pessoas diziam que ela era piranha, mas eu sabia que ela era virgem, que era boa filha, e que tinha um namorado só. As pessoas a julgavam pelo personagem que ela usava no bloco, por ela ter um corpo invejável e usar shorts e tops (ela podia).
Com tudo isso, eu adquiri um aprendizado por toda minha vida, que carrego comigo até hoje, de que não devemos julgar ninguém pelas aparências, e que muitas pessoas denigrem a imagem de outras por pura inveja, como as mulheres recalcadas que não tinham um corpo daquele e faziam questão de falar mal da Merilin pra humilhar e denegrir, apenas pra dizer que eram melhores que ela de alguma maneira, já que fisicamente seria difícil.
A história da Merilin foi muito triste... Tempos depois foi estuprada covardemente, e ao invés de ser apoiada, o povo ainda dizia que ela havia merecido, pois era o que tava querendo com as roupas que usava.
Minha estréia no bloco...
Saímos da rua Marcovald, e seguimos pela estrada de Belford Roxo, passando por todo Bom Pastor. Eu estava desesperada, não tinha aprendido a sambar tão bem como a Meilin, ficava apenas andando de um lado para o outro no meio do bloco. Foi quando vi que o Índio me olhava, e acompanhava o bloco com cara de riso, mas com um olhar bem diferente do de costume. E eu ali, pagando um “Gorila”.
Final do desfile... Vou até uma barraca de cachorro quente, quando vejo o Índio se aproximar dizendo:
- Legal você no Bloco!
Eu muito nervosa respondo:
- Você ta debochando, né?!
Ele ri, e eu digo:
- Quer saber, se tiver isso é um problema seu, não to nem ai pra sua opinião!
Ele diz:
-Calma, não estou debochando não! Mas que você não sabe sambar, isso é fato.
Então quem ri sou eu:
-É verdade! Não levo jeito mesmo pra coisa. Rsrsrs...
Ele diz:
- Deixa eu te pagar um cachorro quente?!
Eu digo:
- Não precisa. Eu paguei o mico, agora pago o cachorro também! Rsrs
Ele ri e responde:
-Mas eu quero pagar um cachorro quente pra você, pode ser?
Eu digo:
- Ta legal, já que você insiste.
Pegamos nossos cachorros quentes e sentamos na esquina da casa de material de construção do João, e fomos comer.
- Que perfume é esse que você usa? Eu nunca conheci ninguém que tivesse esse cheiro? - Ele perguntou.
-Jasmim... - Eu respondi.
Ele diz:
- Muito bom, parece incenso, diferente... Você é uma garota bem diferente.
Eu levanto e digo:
- Legal, mas agora tenho que ir embora!
-Gostaria de ver você outras vezes, pode ser? - Diz ele.
-Pode ser sim! Eu respondo.
-Vou te levar em casa! - Ele disse.
- Não precisa, ta cedo! – Respondo.
- Mas eu quero!
- Tudo bem, ta legal.
Então seguimos para a rua ponta negra...
Quando cheguei bem enfrente ao portão, ele veio como se fosse me dar um beijo no rosto, e me surpreendeu com um beijo nos lábios e disse:
- Terminei meu namoro, você quer se encontrar comigo no sábado? No Inferninho?
Inferninho era o nome de um baile, que de tão ruim, e mal freqüentado levava esse nome.
Respondi:
-Quero sim!
Ele diz:
- Então combinado.
Nos despedimos segurando as mãos soltando bem devagar.
Naquele dia, eu parecia estar no paraíso, me sentia com os pés foras do chão... O menino dos meus sonhos segurou minha mão, pagou um lanche pra mim, me deu um beijo nos lábios, e ainda marcou um encontro comigo...
Dia do baile... A Merilin se prontificou a me levar, meu coração não cabia dentro do peito, mas ao chegar ao clube, vi meu mundo desmoronar, desabar sobre minha cabeça, a primeira coisa que vi foi ele na porta segurando a mão da Cristina, sua ex-namorada, ela era linda, tinha olhos verdes, se vestia bem, parecia a madona, era filha de portugueses também, e não parava muito por ali pelo Bom Pastor.
Ele me olhou, e nos seus olhos eu pude ver que ele não era um canalha, ele não queria fazer ninguém sofrer, ele também estava perdido, ele lamentava aquela situação tanto quanto eu. Não tomei nenhuma atitude, fiquei ali quieta, entrei no clube, me encostei num canto e fiquei ali, fazendo o que eu mas sabia fazer, segurando vela da Merilin e do Marcos.
O Índio amava a Cristina, ele tinha tentado esquecê-la, gostar de outras meninas, mas ela era o grande e único amor de sua vida, amor tão grande que o levou a morte anos depois...
Quando a Cristina o deixou para ir pra Portugal, ele caiu no alcoolismo, virou um bêbado, andava maltrapilho pela rua, anos depois ela retorna ao Brasil, e pede a ele para parar de beber, e fazer uma faculdade, e diz que vai se casar com ele, o amor dele era tão grande que assim ele fez, fez mil planos, parou de beber, e mais uma vez ela o deixou... Mas dessa vez ele caiu em desgraça total, e voltou a beber em dobro, e morreu de cirrose.
Voltando a nossa história...
Ele apareceu bem em minha frente, e disse:
- Você está magoada comigo?
Eu respondi:
- Não! Ta tudo bem.
-Vamos dançar uma musica? Talvez a primeira e ultima dança?
Eu respondi:
-Vamos sim!
Saímos para o meio do salão para dançar uma música do George Michael, que na época era o maior sucesso.
Nós dois ali, de corpos bem próximos, eu podia sentir seu calor, seu cheiro, e ele disse:
- Sandrinha, você é uma menina super legal, eu queria muito gostar de você, mas agente não escolhe de quem gosta, voltei pra minha namorada, me desculpe, não fiz por mal.
Eu respondi:
- Sei que você não fez por mal. Tudo bem! Continuo achando você um cara legal.
E assim nos despedimos, com uma dança e um beijo no rosto.
Voltei para onde eu estava, e de longe ficava assistindo ele e a Cristina se beijando, assim como a Merilin e o Marcos, e ficava pensando que havia algo errado comigo, eu era legal, mas não era amada.
De repente minha tristeza é quebrada por um estranho pré-sentimento, um homem passa por mim e meu corpo todo se arrepia, sinto uma energia pesada, era como se eu pudesse sentir a presença do mal, uma sensação assustadora, eu senti que algo ruim aconteceria.
Final do baile, Merilin e Marcos vão namorar na calçada do supermercado Torrebela e eu fiquei sentada na marquise, mas de repente fui invadida por um pânico repentino, uma sensação horrível... E eu disse:
- Merilin, precisamos ir embora!
- Qual é Sandrinha, só porque o Índio não ficou contigo, eu não posso ficar com meu namorado? Ela respondeu.
- Merilin, não é isso não, você sabe que eu não me importo de segurar vela, é que to com aquele pré-sentimento que tenho quando algo de ruim vai acontecer.
Ela irônica respondeu:
- E aconteceu né? Você levou o fora do cara que você gosta! Espera só um pouco, pô!
Logo em seguida que ela fala isso, vejo um grupo de pessoas seguindo para a direção que devíamos seguir para casa, desesperada ao ver as pessoas indo embora, levantei e disse:
- Tudo bem, você fica, eu vou com aquele grupo, o Marco te leva em casa.
Nesse instante ela toma a decisão de ir comigo, quando já estávamos misturadas com o grupo de pessoas, ouvimos cinco tiros, vindo bem de perto, e um cara alto de uns 1,90 de altura, magro, moreno, passa por nós, com um chapéu tampando seu rosto, usava uma arma grande que eu não sei qual é, passou exclamando:
-Mais um! Mais um!
E seguiu correndo, passando no meio de nós, porém, felizmente, ele não tinha a intenção de matar ninguém daquele grupo.
Como é de costume, todo mundo vai ver quem era o morto, para minha surpresa, o morto era o bêbado que havia passado por mim no baile, só então fui entender o porque daquele estranho pré sentimento.
Tempos depois...
Dia do ensaio do bloco de carnaval do Funchal. Funchal era um cara magro, alto, branco de cabelos escorridos até os ombros, ele era quase uma lenda, um personagem, uma figura.
A Historia dele que mais se comentava foi dele ter levado mais de 30 tiros e 10 facadas ao mesmo tempo e ter sobrevivido, o pessoal dizia em zoação que ele era um zumbi, que ele era eterno. Rsrsrs...
Para assistir aos ensaios do bloco, todo Bom Pastor se aglomerava no espaço em frente à quadra, se é que podemos chamar assim. Era uma casa com um terraço bem grande e um imenso quintal, mas era muito legal, afinal, ali o povo não tinha escola de samba, não tinha acesso a nenhum tipo de lazer, e esse espaço era algo muito importante para nós, ali surgiram passistas e percursionistas.
Nesse dia, a Nina como fazia sempre, foi pedir a minha mãe para eu ir com ela, estávamos conversando, eu, Nina, e Nadia, quando o Índio passou por nós, e pela primeira vez eu percebi que ele me olhou diferente, fiquei tão feliz que não me contive e disse as meninas:
- Vocês viram? Ele olhou pra mim! Finalmente ele me notou.
Elas começaram a rir, e a Nina disse:
- Como assim ele te notou? Ele já te notou há muito tempo, ele é amigo do teu irmão, e você não é invisível, é? Rsrsrs...
Eu respondi:
- Você entendeu... Ele parece estar diferente, algo nele está mudado.
De repente nosso clima de descontração é interrompido, quando olho para cima da quadra e vejo meu irmão cercado de caras mal encarados, vou a direção ao Ricardo e digo:
- Ricardo, Ricardo acho que meu irmão está com problemas, tem uns caras estranhos aqui na área cercando ele, acho que querem pegar ele.
Ricardo responde:
- Fica calma Sandrinha, ninguém vai pegar o Lima, vou lá pra ver o que está acontecendo.
Assim ele fez, reuniu os meninos de seu grupo e foi até onde meu irmão estava, eu como sempre abusada, fui atrás.
-Algum problema ai Lima?! - Exclamou interrogando o Ricardo.
Meu irmão, como sempre calmo, avesso a brigas e confusões respondeu:
- Nenhum problema não!
Falando isso ele estende a mão para o cara que o queria pegar, e o cara não aperta a sua mão e continua o encarando.
Ricardo então diz:
- Tu não vai apertar a mão do cara não? Qual é a tua? Ta querendo briga mesmo?
Vendo que meu irmão não estava mais só, e que a melhor atitude seria ele sair dali, o cara apertou a mão do meu irmão, virou as costas e seguiu seu rumo.
- Lima, você não é de confusão, não entendi essa parada, o que ta acontecendo? - Perguntou o Ricardo.
Meu irmão calmo como sempre respondeu:
- Cara, ele é de um grupo de break rival, e nós ganhamos dele no ultimo concurso.
Ricardo diz:
- Continue como você é! Não se meta em encrencas.
Tudo acalmou, e eu volto para perto das meninas... E mais uma vez o Índio passa me olhando, nesse intervalo, vejo uma linda mulata sambando, de short, top e sandálias douradas, ela era muito bonita, e sambava muito. Cara de pau como sou, não me contive, esperei a primeira oportunidade para falar com ela, assim que ela sentou para tomar um copo de água eu fui até ela e disse:
- Caraça! Você samba muito!
Ela, com cara de poucos amigos, e tipo pensando, “essa daí gosta de mulher”, me olhou com cara de desprezo e disse:
- Você acha?
Eu como sempre ingênua e espontânea digo:
- Nossa! Muito! E você também é muito bonita.
Naquele momento acho que ela percebeu que eu era apenas uma menina maluquinha que não segurava as emoções e a língua, e riu pra mim.
Então ela disse:
- Você não samba?
Eu respondi:
- Quem? Eu? Não! Porque?
Ela responde:
- Bem, é que estamos precisando de uma menina no bloco pra ser a princesa do bloco, e você poderia entrar nessa, o que acha?
Eu respondo:
- Eu? Não! Sou muito desajeitada, não sou bonita, não tenho como comprar a roupa, e não sei sambar.
Ela ri e fala:
-Vamos por partes, desajeitada agente dá jeito, bonita você é, roupa agente arruma, e sambar eu te ensino, o que mais?
Eu:
- Mais nada... Mas não sei se vai dar certo!
Ela:
-Confie em mim, deixa o resto comigo! Você será a nossa passista, a nossa princesa, além do mais é um bloco, não é uma escola de samba.
Eu disse:
- Ta legal, vou tentar.
Ela:
-Amanhã te vejo na minha casa, passa lá depois do almoço.
Deu-me o endereço, e voltou pro ensaio.
No Dia seguinte...
Fui à casa da Merilin, como havíamos combinado, e tive uma imensa surpresa: aquela menina descolada que usava roupas sensuais era uma excelente filha, e dona de casa, tomava conta da irmã ma nova, que aliás, era loira de olhos azuis, o que causava comentários entre os vizinhos, afinal a Merilin era bem negra, mas as duas eram filhas de pais diferentes.
Ela então pegou um vestido velho tipo vestido de 15 anos, com filó e tal, e disse:
- Essa vai ser sua roupa!
Eu respondi interrogando:
-Mas eu não vou colocar o corpo todo de fora não, né? Alem de ter vergonha, sou muito feia de corpo, tenho estômago alto, peitão e pernas finas, ficaria ridículo.
Ela diz:
- Fica tranqüila. Você não precisa mostrar o corpo assim... Você não vai ser rainha de bateria, esse é o meu lugar, você vai ser apenas a representante do bairro, a princesa do bloco.
A Merilin se tornou uma grande amiga. Ensaiávamos todos os dias, ela era uma garota bem diferente quando estava no bloco, de que quando estava em casa, as pessoas diziam que ela era piranha, mas eu sabia que ela era virgem, que era boa filha, e que tinha um namorado só. As pessoas a julgavam pelo personagem que ela usava no bloco, por ela ter um corpo invejável e usar shorts e tops (ela podia).
Com tudo isso, eu adquiri um aprendizado por toda minha vida, que carrego comigo até hoje, de que não devemos julgar ninguém pelas aparências, e que muitas pessoas denigrem a imagem de outras por pura inveja, como as mulheres recalcadas que não tinham um corpo daquele e faziam questão de falar mal da Merilin pra humilhar e denegrir, apenas pra dizer que eram melhores que ela de alguma maneira, já que fisicamente seria difícil.
A história da Merilin foi muito triste... Tempos depois foi estuprada covardemente, e ao invés de ser apoiada, o povo ainda dizia que ela havia merecido, pois era o que tava querendo com as roupas que usava.
Minha estréia no bloco...
Saímos da rua Marcovald, e seguimos pela estrada de Belford Roxo, passando por todo Bom Pastor. Eu estava desesperada, não tinha aprendido a sambar tão bem como a Meilin, ficava apenas andando de um lado para o outro no meio do bloco. Foi quando vi que o Índio me olhava, e acompanhava o bloco com cara de riso, mas com um olhar bem diferente do de costume. E eu ali, pagando um “Gorila”.
Final do desfile... Vou até uma barraca de cachorro quente, quando vejo o Índio se aproximar dizendo:
- Legal você no Bloco!
Eu muito nervosa respondo:
- Você ta debochando, né?!
Ele ri, e eu digo:
- Quer saber, se tiver isso é um problema seu, não to nem ai pra sua opinião!
Ele diz:
-Calma, não estou debochando não! Mas que você não sabe sambar, isso é fato.
Então quem ri sou eu:
-É verdade! Não levo jeito mesmo pra coisa. Rsrsrs...
Ele diz:
- Deixa eu te pagar um cachorro quente?!
Eu digo:
- Não precisa. Eu paguei o mico, agora pago o cachorro também! Rsrs
Ele ri e responde:
-Mas eu quero pagar um cachorro quente pra você, pode ser?
Eu digo:
- Ta legal, já que você insiste.
Pegamos nossos cachorros quentes e sentamos na esquina da casa de material de construção do João, e fomos comer.
- Que perfume é esse que você usa? Eu nunca conheci ninguém que tivesse esse cheiro? - Ele perguntou.
-Jasmim... - Eu respondi.
Ele diz:
- Muito bom, parece incenso, diferente... Você é uma garota bem diferente.
Eu levanto e digo:
- Legal, mas agora tenho que ir embora!
-Gostaria de ver você outras vezes, pode ser? - Diz ele.
-Pode ser sim! Eu respondo.
-Vou te levar em casa! - Ele disse.
- Não precisa, ta cedo! – Respondo.
- Mas eu quero!
- Tudo bem, ta legal.
Então seguimos para a rua ponta negra...
Quando cheguei bem enfrente ao portão, ele veio como se fosse me dar um beijo no rosto, e me surpreendeu com um beijo nos lábios e disse:
- Terminei meu namoro, você quer se encontrar comigo no sábado? No Inferninho?
Inferninho era o nome de um baile, que de tão ruim, e mal freqüentado levava esse nome.
Respondi:
-Quero sim!
Ele diz:
- Então combinado.
Nos despedimos segurando as mãos soltando bem devagar.
Naquele dia, eu parecia estar no paraíso, me sentia com os pés foras do chão... O menino dos meus sonhos segurou minha mão, pagou um lanche pra mim, me deu um beijo nos lábios, e ainda marcou um encontro comigo...
Dia do baile... A Merilin se prontificou a me levar, meu coração não cabia dentro do peito, mas ao chegar ao clube, vi meu mundo desmoronar, desabar sobre minha cabeça, a primeira coisa que vi foi ele na porta segurando a mão da Cristina, sua ex-namorada, ela era linda, tinha olhos verdes, se vestia bem, parecia a madona, era filha de portugueses também, e não parava muito por ali pelo Bom Pastor.
Ele me olhou, e nos seus olhos eu pude ver que ele não era um canalha, ele não queria fazer ninguém sofrer, ele também estava perdido, ele lamentava aquela situação tanto quanto eu. Não tomei nenhuma atitude, fiquei ali quieta, entrei no clube, me encostei num canto e fiquei ali, fazendo o que eu mas sabia fazer, segurando vela da Merilin e do Marcos.
O Índio amava a Cristina, ele tinha tentado esquecê-la, gostar de outras meninas, mas ela era o grande e único amor de sua vida, amor tão grande que o levou a morte anos depois...
Quando a Cristina o deixou para ir pra Portugal, ele caiu no alcoolismo, virou um bêbado, andava maltrapilho pela rua, anos depois ela retorna ao Brasil, e pede a ele para parar de beber, e fazer uma faculdade, e diz que vai se casar com ele, o amor dele era tão grande que assim ele fez, fez mil planos, parou de beber, e mais uma vez ela o deixou... Mas dessa vez ele caiu em desgraça total, e voltou a beber em dobro, e morreu de cirrose.
Voltando a nossa história...
Ele apareceu bem em minha frente, e disse:
- Você está magoada comigo?
Eu respondi:
- Não! Ta tudo bem.
-Vamos dançar uma musica? Talvez a primeira e ultima dança?
Eu respondi:
-Vamos sim!
Saímos para o meio do salão para dançar uma música do George Michael, que na época era o maior sucesso.
Nós dois ali, de corpos bem próximos, eu podia sentir seu calor, seu cheiro, e ele disse:
- Sandrinha, você é uma menina super legal, eu queria muito gostar de você, mas agente não escolhe de quem gosta, voltei pra minha namorada, me desculpe, não fiz por mal.
Eu respondi:
- Sei que você não fez por mal. Tudo bem! Continuo achando você um cara legal.
E assim nos despedimos, com uma dança e um beijo no rosto.
Voltei para onde eu estava, e de longe ficava assistindo ele e a Cristina se beijando, assim como a Merilin e o Marcos, e ficava pensando que havia algo errado comigo, eu era legal, mas não era amada.
De repente minha tristeza é quebrada por um estranho pré-sentimento, um homem passa por mim e meu corpo todo se arrepia, sinto uma energia pesada, era como se eu pudesse sentir a presença do mal, uma sensação assustadora, eu senti que algo ruim aconteceria.
Final do baile, Merilin e Marcos vão namorar na calçada do supermercado Torrebela e eu fiquei sentada na marquise, mas de repente fui invadida por um pânico repentino, uma sensação horrível... E eu disse:
- Merilin, precisamos ir embora!
- Qual é Sandrinha, só porque o Índio não ficou contigo, eu não posso ficar com meu namorado? Ela respondeu.
- Merilin, não é isso não, você sabe que eu não me importo de segurar vela, é que to com aquele pré-sentimento que tenho quando algo de ruim vai acontecer.
Ela irônica respondeu:
- E aconteceu né? Você levou o fora do cara que você gosta! Espera só um pouco, pô!
Logo em seguida que ela fala isso, vejo um grupo de pessoas seguindo para a direção que devíamos seguir para casa, desesperada ao ver as pessoas indo embora, levantei e disse:
- Tudo bem, você fica, eu vou com aquele grupo, o Marco te leva em casa.
Nesse instante ela toma a decisão de ir comigo, quando já estávamos misturadas com o grupo de pessoas, ouvimos cinco tiros, vindo bem de perto, e um cara alto de uns 1,90 de altura, magro, moreno, passa por nós, com um chapéu tampando seu rosto, usava uma arma grande que eu não sei qual é, passou exclamando:
-Mais um! Mais um!
E seguiu correndo, passando no meio de nós, porém, felizmente, ele não tinha a intenção de matar ninguém daquele grupo.
Como é de costume, todo mundo vai ver quem era o morto, para minha surpresa, o morto era o bêbado que havia passado por mim no baile, só então fui entender o porque daquele estranho pré sentimento.
Assinar:
Postagens (Atom)
